Já reparou que não se ri sempre da mesma maneira?

Estudo fundamenta as variações sonoras das nossas gargalhadas

11 outubro 2001
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De acordo com o estudo realizado sob a coordenação de Jo-Anne Bachorowski na Vanderbilt University, Nashville, Tennesse (EUA), o riso é composto por um reportório de sons muito diversos que, curiosamente, não inclui os estereótipos «ah-ah», «eh-eh», nem mesmo o famoso «oh-oh-oh» do Pai Natal.
 

 

Bachorowski e seus colaboradores estudaram mais de mil risos emitidos em diversas encenações sociais. O estudo debruçou-se, por um lado, sobre a acústica do riso e analisou parâmetros como a frequência, a duração e os tipos de sons emitidos durante o riso, por outro também centralizou atenções sobre as influências que condicionam as diversas características do riso e os seus efeitos nas outras pessoas.
 

 

As conclusões deste trabalho apontam para o facto de que «o riso é um fenómemo psico-fisiológico extremamente complexo e diverge completamente do discurso corrente do indivíduo», afirma a coordenadora da investigação no The Online Research Journal of Vanderbilt University.
 

 

De acordo com a equipa de Bachorowski, a criação física do riso envolve uma variedade mais ampla de recursos anatómicos do que o discurso utilizado no quotidiano assim como uma extraordinária multiplicidade de tons que são combinados de várias maneiras consoante a situação que o desencadeia.
 

 

Os primeiros estudos desta equipa começaram por analisar as diferenças entre risos de indivíduos diferentes e verificaram que o riso diverge claramente de acordo com o contexto cultural, o sexo, a familiaridade que a pessoa tem com o seu acompanhante e a idade. Neste trabalho, os investigadores foram pesquisar as origens anatómicas e fisiológicas do riso.
 

 

As revelações do riso...
 

 

Este trabalho revelou um conjunto de características curiosas do riso como, por exemplo:
 

 

- O riso emitido pelo homem é condicionado pela história da sua relação social com o interlocutor. Curiosamente, os homens riem-se mais quando estão na presença de outros homens do que quando estão sozinhos com uma ou várias senhoras;
 

 

- As gargalhadas femininas dependem do sexo da sua companhia. Com um amigo, a mulher ri muito mais do que na companhia de um homem estranho ou quando acompanhada por outras mulheres.
 

 

- Quando uma mulher se depara na companhia de um homem desconhecido, o seu riso tem um tom mais elevado e uma frequência também mais alta que transmite, de acordo com a coordenadora desta investigação, uma forma de ultrapassar a sua estatura mais reduzida relativamente ao seu interlocutor e também pode ser, ainda de acordo com Bachorowski, uma estratégia para explorar todas as potencialidades da atracção que os homens sentem por mulheres jovens e daí a emissão de um riso com características joviais.
 

 

- Cada pessoa tem o seu próprio reportório de sons que são utilizados em diversas combinações e frequências de acordo com a situação psico-social que desencadeia o riso.
 

 

- Finalmente, os risos podem ser (grosseiramente!) classificados em três tipos diferentes:
 

 

(1) Riso composto por tons claros, altos e bem colocados (digamos que é o tipo que mais corresponde à noção estereotipada do riso);
 

(2) Riso do tipo «arfada», cujo som é inicialmente libertado pelo nariz e
 

(3) Riso do tipo «grunhido», cujo som é produzido inteiramente na cavidade bucal.
 

 

«Estes resultados sustentam a noção de que uma função importante da acústica do riso é a influência das respostas emocionais dos interlocutores», afirma Bachorowski. Da classificação não constam aquelas variantes que todos conhecemos muito bem: o riso fingido, o de circunstância, o sedutor, etc.
 

 

O papel do riso na evolução da espécie humana
 

 

Numa perspectiva evolucionista, Bachorowski avança com uma especulação interessante. De acordo com ela, o riso humano evoluiu como uma forma de formar alianças.
 

 

Primeiro terá surgido o sorriso, que comunica uma disposição de receptividade aos outros indivíduos. À medida que o tempo que governa a evolução passou, foi cada vez mais fácil fingir um sorriso pelo que terá surgido a necessidade de elaborar um sinal de receptividade social mais complexo e, por isso, mais difícil de forjar. Terá sido desta forma que surgiu o riso com todas as suas variantes acústicas.
 

 

Como o riso envolve uma maior diversidade de recursos anatómicos, neurológicos e fisiológicos que exigem gastos energéticos mais elevados do que o simples sorriso, o riso torna-se muito mais difícil de forjar... daí a facilidade em detectar um riso fingido.
 

 

Assim, podemos dizer que o riso ultrapassa o sorriso pela sua honestidade através de um interessante jogo que envolve diversas áreas de conhecimento do corpo humano e que incluem a anatomia, a fisiologia, a psicologia e a neurologia.
 

 

Esta interessante perspectiva evolutiva do riso pode ser consultada num dos capítulos, da autoria de Jo-Anne Bachorowski, do livro Emotions: Current Issues and Future Development publicado pela Guildford Press.
 

 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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