Investigadores portugueses descobrem como reforçar sistema imunitário

Estudo pioneiro a nível mundial

17 fevereiro 2003
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Investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) descobriram que é possível estimular o desenvolvimento e tornar mais eficientes células do sistema imunitário que desempenham um papel crucial na prevenção de doenças auto-imunes, como a diabetes.
 

 

Descrita na edição de hoje do Journal of Experimental Medicine, publicado pela Universidade Rockefeller, Nova Iorque (EUA), a investigação em causa é pioneira a nível mundial, na medida em que demonstra, pela primeira vez, que as células T reguladoras são capazes de reconhecer e reagir a substâncias inflamatórias provenientes de bactérias.
 

 

"O resultado foi surpreendente pois sempre se pensou que os micróbios eram engolidos por outras células do sistema imune, modificados e depois apresentados às células T para estas desencadearem a resposta controlada de defesa do corpo", disse à Agência Lusa Íris Caramalho, primeira autora do estudo.
 

 

Administrando LPS (um composto altamente indutor de inflamação) em ratinhos, um grupo de seis cientistas do IGC não só demonstrou que as células T reguladoras conseguem dar respostas imunes, como também se expandem e tornam-se mais eficientes na presença de agentes infecciosos.
 

 

"Demonstrámos que afinal existe um tipo especial de células T que reconhece directamente as substâncias inflamatórias e responde a elas, um mecanismo de controlo da inflamação que se desconhecia por completo", continuou.
 

 

Até agora, os cientistas pensavam que estas células apenas eram capazes de reconhecer substâncias com as quais teriam alguma afinidade, os antigénios (micróbios modificados por outras células do sistema imune), acrescentou.
 

 

A investigação, toda ela realizada no IGC com o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Fundação Calouste Gulbenkian, poderá vir a ter importantes aplicações terapêuticas.
 

 

A população de células T reguladoras está implicada no desenvolvimento de doenças auto-imunes (patologias caracterizadas por uma resposta imunológica contra os tecidos do próprio organismo, como a diabetes ou a artrite reumatóide), na resposta do sistema imune ao crescimento de tumores, sendo igualmente importante na indução de tolerância nos transplantes.
 

 

No entanto, estas células existem em número reduzido no sistema imunitário, explicou Caramalho, indicando que é nesse aspecto que o trabalho do IGC poderá ser fundamental. É nesse sentido que os investigadores do Grupo de Fisiologia de Linfócitos vão direccionar agora os seus trabalhos, liderados pela francesa Jocelyne Demengeot.
 

 

"Sabemos que a incidência de doenças auto-imunes nos países desenvolvidos é maior que em países em vias de desenvolvimento", referiu.
 

 

A explicação poderá passar pelo facto dos indivíduos daqueles países estarem menos expostos a infecções durante a infância e a adolescência, o que poderá impedir que a população de células reguladoras seja activada e se expanda, tal como demonstrámos que acontece perante um composto pró-inflamatório, prosseguiu.
 

 

"O que estamos agora a fazer é procurar compostos que activem e expandam este tipo de células, simulando os efeitos benéficos da inflamação, sem o risco de exposição a agentes infecciosos", disse.
 

 

Segundo a investigadora, o ideal seria ter, no futuro, um composto capaz de estimular estas células, tirando partido da sua capacidade constrangedora do desenvolvimento de doenças auto- imunes.
 

 

O Laboratório de Fisiologia de Linfócitos do Instituto Gulbenkian de Ciência é parceiro do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) francês.
 

 

Fonte: Lusa

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