Investigação pelo coração

Insuficiência cardíaca ganha inimigos mais poderosos

06 novembro 2002
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Uma nova família de medicamentos para a insuficiência cardíaca demonstrou ser uma boa alternativa para os doentes intolerantes aos fármacos tradicionais, reduzindo a mortalidade em mais de um terço.
 

 

A insuficiência cardíaca (IC), condição que se caracteriza por uma incapacidade do coração bombear a quantidade suficiente de sangue para o corpo, afecta mais de quatro portugueses em cada cem.
 

 

"Os doentes com insuficiência cardíaca têm uma mortalidade elevadíssima e uma fraca qualidade de vida, devido às altas taxas de hospitalizações", explicou, em declarações à Agência Lusa, Manuela Fiúza, cardiologista no Hospital de Santa Maria.
 

 

Segundo dados do estudo EPICA (Prevalência da Insuficiência Cardíaca no Sul da Europa) citados por Manuela Fiúza, a prevalência da IC em Portugal é de 4,36 por cento.
 

"Esta prevalência vai aumentando com a idade e, nos doentes entre os 70 e os 79 anos, é de 12,67 por cento", explicou.
 

Em termos europeus, segundo dados estatísticos, existe uma população de cerca de 50 milhões de indivíduos com insuficiência cardíaca.
 

 

A nova família de medicamentos, os ARA-II (Antagonistas dos receptores da angiotensina II) permitiu, nos doentes que não toleram os medicamentos habitualmente receitados para a insuficiência cardíaca (os inibidores da enzima de conversão da angiotensina - IECAs), reduzir a mortalidade em 33 por cento, a morbilidade em 44 por cento e as hospitalizações em 56,4 por cento.
 

 

Estes dados foram publicados recentemente no Journal of the American College of Cardiology, a publicação de referência no domínio da cardiologia, e referem-se a um subgrupo de doentes analisados no âmbito de um trabalho maior divulgado em 2001, o Val- HeFT (Valsartan Heart Failure Trial).
 

O estudo Val-HeFT analisou 5.010 doentes em 302 centros de saúde de 16 países.
 

 

Neste estudo, além da terapêutica habitualmente administrada aos doentes com insuficiência cardíaca (IECAs, diuréticos, digitálicos e betabloqueadores), a uma parte dos indivíduos foi também dado valsartan, princípio activo da família dos ARA-II, enquanto os restantes tomaram placebo (substância inócua utilizada em ensaios científicos como forma de controlo).
 

 

Os cientistas concluíram que, nos doentes que tomavam valsartan juntamente com os medicamentos habituais, se registaram melhorias da qualidade de vida (redução da morbilidade em 13,2 por cento e das hospitalizações em 27,5 por cento), embora não se registassem alterações significativas na taxa de mortalidade.
 

 

No entanto, um subgrupo de 366 doentes inseridos neste estudo não tolerava a terapêutica habitual, devido ao incómodo das reacções adversas.
 

 

Graças a este subgrupo, os investigadores puderam observar a eficácia isolada deste princípio activo, o valsartan, contra a administração de placebo.
 

 

"Pela primeira vez pudemos confirmar na prática aquilo que os investigadores já sabiam na teoria: que o valsartan, e pensamos que os ARA-II em geral, são uma alternativa eficaz e segura para os doentes com intolerância aos IECAs", explicou Manuela Fiúza.
 

 

Até agora nenhum estudo tinha demonstrado a eficácia isolada destes medicamentos por ser impensável arriscar retirar os IECAs aos doentes com insuficiência cardíaca.
 

 

Os IECAs revolucionaram o tratamento da IC há cerca de 20 anos, já que actuam ao nível de uma enzima que impede (ou reduz) a possibilidade de formação de angiotensina-II (AG-II), um potente vasoconstritor, ou seja, o inimigo público número um a abater nos casos de IC.
 

 

"Actualmente, os IECAs continuam a ser praticamente insubstituíveis para estes doentes", sublinhou a investigadora, professora auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
 

 

No entanto, cerca de 10 a 20 por cento dos doentes com IC não toleram esta terapêutica, sendo a tosse a reacção adversa mais referida.
 

 

Além disso, o nosso organismo tem outras vias para desenvolver a AG-II. Por estas duas razões, tornava-se urgente encontrar uma terapêutica alternativa aos IECAs.
 

 

"Identificou-se que a AG-II tem dois receptores para actuar, sendo que um deles (AT1) é o responsável pela acção vasoconstritora", explicou a cardiologista.
 

 

Assim, os novos medicamentos, os ARA-II, foram desenhados precisamente para antagonizar este AT1.
 

 

"Esta nova família de fármacos apresenta os mesmos níveis de eficácia dos IECAs com a vantagem de não causarem a tosse como reacção adversa", precisou Manuela Fiúza.
 

 

No entanto, actualmente não se coloca a possibilidade de virem a substituir os IECAs para a generalidade dos doentes, mas apenas naqueles que revelam intolerância em relação à terapêutica habitual.
 

 

Em Portugal, já são comercializados há cerca de 5-7 anos vários medicamentos da família dos ARA-II.
 

 

Fonte: Lusa
 

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