Inquérito revela graves lacunas na educação sexual dos jovens

Associação para o Planeamento da Família com menos verbas para 2003

15 novembro 2002
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«Se uma pessoa fizer sexo 15 horas seguidas é provável que depois entre em coma?» A dúvida, que possivelmente preenche o imaginário de muitos jovens, foi colocada de forma escrita numa «caixa», para que os alunos pudessem ter, anonimamente, respostas às suas perguntas. Mas muitas outras, do tipo «o sexo é bom? É saudável?», ou «Será que é um choque psicológico muito grande perder a virgindade?» _ revelam a «sede» de saber deste universo de 521 jovens entre os 15 e os 18 anos de quatro escolas secundárias do Norte, que não têm programa de educação sexual. A psicóloga clínica Carla Serrão, que efectuou o inquérito, concluiu que «os jovens não sabem o que é a educação sexual e é preciso ter isso em atenção, porque muita da informação que possuem vem da pressão social, que insiste na mensagem de se preservar a virgindade, ou em histórias que se ouviram contar da boca de outros», disse ao DN. Uma das questões que as raparigas mais indagaram foi a da existência, ou não, de «dor» nas relações sexuais. Nas alunas persiste a ideia de que «o sexo em pé não engravida», assim como «lavar-se depois da relação faz desaparecer o risco de gravidez». Mas não se pense que estes jovens são todos desprovidos de informação. Houve um que disse «ter o Kamasutra em casa».
 

 

 

As expectativas de 50 alunos alentejanos que vivem em meio urbano revelaram, num inquérito feito em duas turmas do 8.º ano, que se interrogam muito sobre as transformações que estão a acontecer no seu corpo. «As raparigas têm menstruação e os rapazes o que é que têm», questionava-se uma adolescente entre os 13 e os 14 anos. Um jovem da mesma idade queria saber «qual o tamanho que o pénis pode atingir?». Outros perguntavam: «porque é que é mais importante a virgindade de uma rapariga do que a virgindade do rapaz?», «como se mostra a um rapaz que se gosta dele?». A professora Isabel Carreira, que fez o levantamento da «caixa de perguntas», chegou à conclusão que «estas dúvidas levam-nos a inferir que a informação que possuem tem bastantes lacunas, o que não é desejável nestas idades, numa altura em que muitos deles já vivenciaram as transformações pubertárias e outros aguardam com alguma ansiedade as transformações inerentes a esta fase da vida». Também nesta escola há ausência de um projecto de educação sexual, o que levou esta professora, que hoje apresentará os seus dados no encontro da Associação para o Planeamento da Família, a considerar «necessário responder às expectativas dos jovens», num contexto afectivo-sexual.
 

 

A psicóloga Maria Alfaiate ficou muito surpreendida quando leu as perguntas anónimas que cerca de 300 alunos do 6.º ano, a rondar os 11 anos de idade, de três escolas da Zona Centro, colocaram na «caixa», das perguntas anónimas, uma técnica que os professores utilizam para saber das dificuldades dos discentes, antes de iniciarem um programa, neste caso de educação sexual. «Havia imensas perguntas sobre como se fazem os bebés, o que não seria de esperar neste universo de alunos que já se esqueceu da matéria dada na componente de Ciências», explica ao DN. Pelo que depreendeu, das questões que abrangeram as mais variadas áreas da sexualidade, «quando falamos de educação sexual, os alunos pensam que estamos a falar de sexo. Quase diria que os sentimentos têm um papel muito pouco importante».
 

 

Maria Alfaiate também constatou que os jovens destas idades «associam uma série de aspectos negativos à sexualidade, como as doenças». Outras insistências que lhe causaram admiração dizem respeito à pedofilia «porque é que abusam das crianças?», e o uso indevido da Internet, além do acesso a canais pornográficos. «Perguntavam porque é que o sexo tem de ser tão violento e por que razão as mulheres gritam tanto durante as relações sexuais.»
 

 

Para o ano lectivo 2002/2003, a Associação para o Planeamento da Família (APF) recebeu, do Ministério da Educação, menos 17% das verbas destinadas a promover a educação sexual nas escolas. O director executivo da APF, Duarte Vilar, disse à Agência Lusa que o corte significa a redução das acções de sensibilização para professores, auxiliares de acção educativa, pais, apoio técnico e documental e da promoção de encontros de intercâmbio entre as escolas.
 

 

Leia tudo em: Diário de Notícias
 

 

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