Impotência feminina posta em causa

Jornalista acusa indústria de «inventar» problema para ganhar mais dinheiro

06 janeiro 2003
  |  Partilhar:

A polémica estalou na semana passada. Num artigo publicado no British Medical Journal, o jornalista australiano Ray Moynihan acusa investigadores ligados à indústria farmacêutica de estabelecerem a falsa noção de que alterações sexuais são na verdade «disfunções». Segundo a tese do jornalista, as empresas estariam a exagerar os problemas sexuais das mulheres, para passar a impressão de que precisam de ser tratadas com medicamentos.
 

 

A venda do medicamento contra a disfunção eréctil masculina, Viagra, rendeu cerca de 1,5 bilião de dólares ao laboratório farmacêutico Pfizer desde o seu lançamento, em 1998. A ideia seria recriar um mercado parecido para as mulheres.
 

 

Por isso mesmo, Ray Moynihan aponta o dedo a grandes companhias farmacêuticas de criar uma doença a partir de problemas sexuais femininos com o objectivo de vender os fármacos.
 

 

«Um grupo de investigadores próximos a fabricantes de remédios estarão a trabalhar com colegas da indústria farmacêutica para desenvolver e definir uma nova categoria de doença humana em congressos patrocinados por empresas», refere a publicação.
 

 

Parte da comunidade científica acredita que é perigoso tratar das alterações sexuais femininas - como a diminuição do desejo depois do parto ou com um parceiro de muitos anos - como doença.
 

 

Em entrevista à BBC, Sandra Leiblum, professora de psiquiatria da Escola de Medicina Wood Johnson, é um facto que existe muita insatisfação e talvez desinteresse entre muitas mulheres. «Mas isso não significa que elas tenham uma doença», afirmou.
 

 

«Definir dificuldades sexuais como uma disfunção pode encorajar alguns médicos a receitar medicamentos para mudar a função sexual quando a atenção deveria ser voltada para outros aspectos da vida da mulher», alertou o director do Instituto Kinsey da Universidade de Indiana, John Bancroft. «Também é provável que faça as mulheres pensarem que têm um problema físico, quando não têm.»
 

 

No entanto, o secretário da Sociedade Britânica para a
 

Pesquisa sobre Sexo e Impotência, John Dean, ressaltou que os problemas sexuais femininos poderiam ter fundamento médico, embora os factores psicológicos e sócio-económicos também tenham um impacto significativo no comportamento sexual da mulher.
 

 

 

Para o responsável, não existe nada de errado no facto de algumas companhias farmacêuticas terem ligações com investigadores. Segundo o especialista, é preciso apenas evitar que a influência da indústria determine a direcção da pesquisa.
 

 

Laboratórios negam
 

 

Em resposta às alegadas acusações, as empresas farmacêuticas responsáveis pelo desenvolvimento de medicamentos contra a impotência dizem que apenas estão a procurar uma opção de tratamento para milhões de mulheres que sofrem de disfunções sexuais.
 

«Tudo o que se está a fazer é oferecer uma alternativa que possa ser usada por médicos se a situação o exigir», disse à BBC Richard Tiner, director médico da Associação da Indústria Farmacêutica Britânica.
 

 

 

Uma porta-voz do laboratório Pfizer também negou as acusações, lembrando que o Viagra - além de outros fármacos concorrentes prestes a ser lançados por duas outras empresas farmacêuticas - ainda não teve o uso aprovado para as mulheres. Para o responsável, o artigo publicado no British Medical Journal é de um enorme desrespeito para as mulheres que passam por problemas sexuais e que pedem ajuda para esse sofrimento.
 

 

E acrescentou: «Trabalhamos em cima das necessidades médicas não atendidas. Muito antes de começarmos a investigar, havia muitos académicos a trabalhar na área».
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.