Implante subcutâneo preserva fertilidade das mulheres oncológicas

Nova técnica poderá ser uma solução para as doentes sumetidas a oncoterapia

25 setembro 2001
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Quando uma mulher jovem, padecendo de cancro, é submetida a tratamentos por radio e/ou quimioterapia, corre sérios riscos de ficar com o tecido ovárico destruído por estes procedimentos terapêuticos. Agora, um grupo de investigadores do Institute for Reproductive Medicine no Weill Medical College, Cornell University, New York (EUA), desenvolveu uma nova técnica para salvaguardar a produção das hormonas sexuais nas mulheres que precisam de receber estas terapias oncológicas.
 

 

Esta técnica foi desenvolvida sob a supervisão de Kutluk Oktay, médico e professor naquele instituto, aplicada a título experimental no tratamento de duas mulheres e os resultados da sua aplicação foram publicados no Journal of the American Medical Association.
 

 

Em que se baseia esta técnica?
 

 

O tratamento oncológico da área pélvica por radio ou por quimioterapia implica sempre a destruição da totalidade ou de partes do tecido ovárico e consequente diminuição, ou até mesmo perda, das suas funções dos ovários: produção das hormonas sexuais femininas.
 

 

Disto resulta que as mulheres submetidas a estas terapias entram precocemente em menopausa e, portanto, a sua fertilidade fica definitivamente comprometida. Algumas drogas usadas no tratamento dos cancros mais agressivos são altamente tóxicas para os óvulos e podem mesmo destruir uma parte significativa do próprio ovário. Nestes casos, a menopausa surge imediatamente após o tratamento.
 

 

Além disso, estas mulheres também têm maiores probabilidades de desenvolverem precocemente o quadro clínico da osteoporose, com todas as implicações que isso representa ao nível da fragilidade do tecido ósseo.
 

 

Antes de cada uma das duas mulheres iniciar o tratamento de radio e/ou quimioterapia, foram submetidas a uma intervenção destinada à recolha de todo o tecido ovárico passível de ser removido. Este tecido foi congelado para ser posteriormente implantado ao nível subcutâneo, no antebraço.
 

 

O processo de implantação do tecido ovárico no antebraço não implicou anestesia geral e é muito semelhante à técnica de aplicação do Norplant, um contraceptivo de progestina de aplicação subcutânea, também no antebraço.
 

 

Após a implantação do tecido ovárico, uma das mulheres manteve a sua função ovárica com ovulações e menstruações normais. A outra mulher, apenas manteve as ovulações normais sem voltar a apresentar menstruações.
 

 

Perspectivas para o futuro
 

 

O coordenador deste trabalho defende que, futuramente, nos procedimentos que envolverem a remoção total de ambos os ovários, todo o tecido pode ser congelado e usado em implantações sucessivas para substituição do implante anterior deteriorado.
 

 

Relativamente à «eficácia» das ovulações posteriores ao implante, Kutluk Oktay afirma que «a própria ovulação “normal” não é um processo eficiente.» E explica: «em cada mês, por cada óvulo que entra em ovulação são desperdiçados milhares de outros óvulos. Por esta razão, este procedimento pode até ser estatisticamente mais eficiente pois só se utiliza uma pequena parte de tecido ovárico em cada implante. Mas isto ainda tem de ser submetido a ensaios clínicos para ser confirmado.»
 

 

O próprio coordenador deste trabalho está surpreendido com o facto da sua equipa ter conseguido restabelecer uma menstruação normal mensal com as hormonas produzidas no implante localizado no antebraço. Mas avança uma explicação bastante plausível: «as gónadas estão programadas para sobreviverem e, por isso, elas adaptam-se às mais variadas situações.» E avança com uma analogia biológica simples: «Nos homens, os testículos estão imediatamente abaixo da pele.»
 

 

No entanto, o relato deste trabalho ressalva que embora esta técnica possa ajudar uma mulher que tenha sido submetida a terapêuticas potencialmente comprometedoras da sua fertilidade a permanecer fértil e, portanto, com capacidade de conceber uma criança, a concepção só é possível através dos tratamentos de reprodução médica assistida, designados vulgarmente por fertilização in vitro.
 

 

Especialistas recomendam cautela
 

 

Marc A. Fritz, director do departamento de endocrinologia reprodutiva da University of North Carolina, Chapel Hill (EUA), classifica estes resultados como «intrigantes e fascinantes». No entanto, recomenda cautela quanto à sua aplicação terapêutica no tratamento de mulheres que apresentem riscos de infertilidade decorrentes dos tratamentos como a radio e/ou a quimioterapia. «É, sem dúvida, uma técnica muito prometedora mas o relato de duas aplicações não é suficiente para a estabelecer como terapia. (...) Recorde-se que uma das pacientes teve ovulações mas não voltou a ter menstruações.»
 

 

O alerta de Marc A. Fritz continua: «normalmente, entra-se numa enorme excitação quando aparecem resultados muito prometedores e surgem especulações para aplicações erradas.» Este médico afirma que muitas pessoas podem levar estes resultados ao extremo: as mulheres jovens podem pensar que é possível congelar os seus ovários para, muito mais tarde, quando quiserem ter filhos, poderem implantar o tecido ovárico no seu antebraço e, assim, controlarem de uma forma mais eficaz (segundo elas próprias) a sua fertilidade. Assim, Marc A. Fritz defende que isso, além de ter sérias implicações éticas, não tem qualquer viabilidade de aplicação como método de controlo da natalidade.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet
 

 

Fonte: WebMD

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