Identificada a origem da imunidade natural à Sida

Descoberta culmina com 15 anos de investigação

26 setembro 2002
  |  Partilhar:

Uma equipa de investigadores norte-americanos e chineses identificou a origem da imunidade natural verificada junto de alguns seropositivos infectados pelo vírus da sida que acabam por nunca desenvolver a doença.
 

 

A descoberta, que vem coroar 15 anos de trabalho, abre caminho à possibilidade de desenvolver novos tratamentos promissores, considerou David Ho, director do Centro de investigações Aaron Diamond sobre a sida (ADARC), em Nova Iorque.
 

 

Uma equipa do ADARC, composta por investigadores norte- americanos e chineses, conseguiu isolar um grupo de proteínas que denominou defensinas-alfa-1, alfa-2 e alfa-3, capazes de inibir a replicação do vírus, impedindo assim a progressão da infecção nos cerca de 1 a 2 por cento de seropositivos que nunca desenvolvem Sida.
 

 

"Esta descoberta é uma etapa importante para a nossa compreensão sobre a forma como o corpo combate o HIV", sublinhou Linqi Zhang, que dirigiu os trabalhos.
 

 

"Compreendendo como o sistema imunitário de certas pessoas consegue controlar a infecção causada pelo HIV, poderemos ser capazes de desenvolver novos tratamentos que tirem partido desse fenómeno", acrescentou.
 

Os trabalhos serão publicados na edição de sexta-feira da revista norte-americana Science.
 

 

Substâncias inibidoras
 

 

A descoberta poderá explicar porque razão uma extremamente pequena percentagem de pessoas seropositivas, e classificadas de "não-progressivas a longo prazo", vivem mais tempo sem nunca chegar a desenvolver Sida e o conjunto de doenças que lhe estão associadas.
 

 

A comunidade científica sabe desde 1986 que alguns glóbulos brancos do sistema imunitário, os linfócitos T CD8, podem produzir factores (substâncias químicas) capazes de inibir a multiplicação do vírus da Sida.
 

 

Parece, em particular, que as células T CD8 das pessoas naturalmente "imunizadas" podem produzir fortes concentrações destes factores.
 

 

Um estudo realizado por um investigador canadiano no Quénia, Francis Plummer, da Universidade de Manitoba, junto de prostitutas seropositivas, tinha já demonstrado que cerca de 5 por cento delas possuíam uma espécie de imunidade natural contra o HIV/Sida, possivelmente de origem hereditária.
 

 

 

Percentagem reduzida
 

 

Nos Estados Unidos, o número de pessoas com esta "propriedade" deverá situar-se em 1 a dois por cento da população seropositiva, afirmam os investigadores do ADARC.
 

 

Mas apesar dos esforços, a identidade destes agentes químicos continua a ser um mistério.
 

 

Em 1995 foi descoberta uma família de proteínas denominadas beta-chemoquinas que parecia explicar em parte a supressão da carga viral junto destas pessoas, mas revelava-se ineficaz contra diferentes estirpes do vírus, não sendo suficiente por si só para explicar este fenómeno.
 

 

As três proteínas anti-HIV identificadas no estudo do ADARC são activas contra todas as estirpes do vírus, o que sugere que estas defensinas-alfa poderão ter aplicações terapêuticas.
 

 

"As defensinas-alfa anunciam-se promissoras para reforçar o arsenal de tratamento contra o HIV", sublinhou o director da ADARC, David Ho.
 

 

Segundo o perito, a sua equipa "vai prosseguir os trabalhos no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas fundamentadas nesta descoberta".
 

 

Resolvido o mistério
 

 

Com o objectivo de confirmar que era de facto a acção destas defensinas-alfa que estava na origem do fenómeno da "imunização", a equipa de investigadores suprimiu-as artificialmente das proteínas produzidas pelos linfócitos T CD8 recolhidos em pessoas "não-progressivas a longo prazo".
 

 

Resultado: a actividade anti-HIV destes glóbulos foi desta forma praticamente eliminada. Faltava ainda avaliar a força da acção destas defensinas-alfa.
 

 

Para isso, os investigadores testaram uma versão natural obtida pela purificação de células imunitárias e uma outra versão sintética fabricada em laboratório.
 

 

As duas revelaram eficácia contra o HIV, mas os testes sublinharam que a versão natural era entre 10 a 20 vezes mais forte que o seu par sintético.
 

 

Os investigadores do ADARC exploram agora os meios de potenciar a força das defensinas-alfa de origem sintética.
 

 

Em Portugal, segundo dados da Comissão Nacional de Luta contra a Sida referentes a 31 de Dezembro de 2001, entre 1 de Julho e 31 de Dezembro foram recebidas notificações de 1.282 casos de infecção pelo HIV, encontrando-se registados um total de 18.995 casos de HIV/sida nos diferentes estádios da infecção.
 

 

Fonte: Lusa
 

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.