Gravidez por clonagem é uma situação criminosa

Especialistas portugueses comentam experiência de Antinori

28 novembro 2002
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Um acto criminoso foi como especialistas portugueses definiram a gravidez obtida por clonagem anunciada em Roma, temendo que, caso se concretize numa criança, esta esteja condenada a várias incertezas do ponto de vista médico.
 

 

O polémico ginecologista italiano Severino Antinori (na foto)anunciou terça-feira que uma mulher portadora de um embrião humano obtido por clonagem deverá ter a criança no início de Janeiro.
 

 

O investigador, cujas posições favoráveis à clonagem para resolver o problema dos casais estéreis que pretendam ter filhos lhe têm retirado credibilidade junto da comunidade científica, acrescentou que a gravidez se encontra na 33/a semana, desenrolando-se sem complicações.
 

 

Em declarações à Agência Lusa, Carolino Monteiro, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), classificou como "criminosa" a condução de experiências de processos biológicos não controlados em seres humanos.
 

 

Uma opinião partilhada por José Rueff, do departamento de Genética da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, para quem esta gravidez é "altamente improvável".
 

 

Ainda que seja verdadeira e se concretize num nascimento, disse, "vai condenar uma criança a incertezas brutais do ponto de vista médico e pediátrico", para as quais não existe literatura científica, nem um acervo de dados suficiente que permita responder às complicações que surgirem. "A gravidez pode também resultar num nado morto ou votar a criança a uma morte precoce ou à nascença", continuou.
 

 

A manifesta desconfiança dos dois especialistas relativamente ao anúncio de Antinori reside na "baixíssima taxa de sucesso" que a técnica regista junto de seres vivos, explicou o geneticista Carolino Monteiro, indicando que, nos caprinos, apenas uma em 400 clonagens são bem sucedidas.
 

 

Por um lado, "os trabalhos sobre a clonagem estão ainda numa fase inicial, em que o objectivo é tentar compreender os mecanismos", por outro, "existem vários problemas que lhe estão associados, como o envelhecimento precoce que parece afectar a ovelha Dolly, o ex-libris da clonagem com seres vivos", explicou.
 

 

"Com uma taxa de insucesso desta ordem, como é possível terem sido resolvidos todos os problemas inerentes à técnica de modo a permitir, pela primeira vez, a clonagem de um embrião humano?", questionou Rueff.
 

 

Carolino Monteiro referiu os mesmos obstáculos, lembrando que existe ainda uma falta de controlo sobre o processo de clonagem, o que torna esta presumível gravidez "na passagem de processos experimentais ainda sem controlo de qualidade nos animais para seres humanos", com todas as consequências que daí possam advir. "Mesmo que a gravidez exista, e mesmo que seja bem sucedida, é necessário esperar para ver o que acontece", indicou.
 

 

Em segredo...
 

 

À semelhança do que aconteceu anteriormente, Antinori não revelou em que país está a decorrer a experiência.
 

Acrescentou apenas que não assistirá ao parto desta criança do sexo masculino, e que não participou na clonagem em causa.
 

 

Segundo Antinori, estariam em curso mais duas gravidezes de embriões clonados, uma de 28 semanas e outra de 27, mas não adiantou outros pormenores, para além de confirmar que os três casos estão a verificar-se na mesma zona geográfica.
 

 

Esta ânsia de protagonismo do especialista italiano, que chegou a constituir um consórcio internacional com a intenção de clonar humanos para ajudar casais estéreis a terem filhos, é também criticada por Carolino Monteiro.
 

 

"Este tipo de anúncios, e a forma como são feitos, prejudica todos os cientistas que trabalham no sentido de experimentar e melhorar a técnica da clonagem para dela retirarem benefícios para o homem, uma vez que a desacreditam junto da opinião pública", considerou.
 

 

Para além das questões éticas que um procedimento deste tipo coloca aos cientistas, a clonagem enquanto método reprodutivo está interdita através de um tratado do Conselho da Europa, ratificado por todos os Estados membros excepto o Reino Unido, indicou ainda José Rueff, ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Genética.
 

 

Fonte: Lusa
 

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