Genómica abre novos caminhos para combater o paludismo

Novos medicamentos podem estar no horizonte

02 outubro 2002
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Um consórcio internacional de investigadores descodificou os genomas do parasita que causa o paludismo e o do mosquito responsável pela transmissão da doença, um trabalho que vai revolucionar toda a investigação nesta área.
 

 

As revistas Nature e Science destacam estes desenvolvimentos científicos, respectivamente o da descodificação do genoma do parasita Plasmodium falciparum, o mais perigoso agente causador do paludismo, e o da sequenciação do genoma do mosquito Anopheles gambiae, principal vector do parasita.
 

 

"É um momento extraordinário na história da ciência", afirmou o responsável do programa de investigação sobre doenças tropicais da Organização Mundial de Saúde (TDR), Carlos Morel.
 

 

A descoberta foi possível pela colaboração entre o TDR, a Fundação MacArthur e o Instituto Pasteur, um esforço que envolveu mais de 160 investigadores em dez países.
 

 

Também chamado malária ("mau ar" em italiano) pela sua predominância nas regiões húmidas e próximas do mar, o paludismo ameaça dois mil milhões de pessoas, infecta entre 300 a 500 milhões e mata, anualmente, entre 1,5 e 2,7 milhões.
 

 

Nove em cada dez das mortes provocadas pelo paludismo acontece em África, a um ritmo de uma morte por cada 10-12 segundos.
 

 

A partir de agora, os cientistas possuem uma massa de informações sobre os três actores da doença: o homem, o Plasmodium e o mosquito "Anopheles gambiae".
 

 

Evolução rápida
 

 

Há apenas três anos, os bancos de dados continham menos de dez genes completos deste mosquito. Hoje, os investigadores dispõem de uma base de dados com perto de 14.000 genes, incluindo alguns que apresentam um interesse médico vital.
 

 

Os investigadores sabem ainda que alguns genes desempenham um papel na transmissão do parasita, outros na resistência do mosquito aos insecticidas e outros nas suas capacidades olfactivas (o que deverá permitir compreender porque é que ele é mais atraído por certas pessoas).
 

 

Outros genes deverão ainda permitir explicar a capacidade do mosquito de se proteger de ataques químicos lançados contra ele desde há décadas pelos humanos.
 

 

A notícia da decifração dos genomas é especialmente importante num momento em que os medicamentos anti-parasitários estão a perder eficácia.
 

 

Multi-resistência
 

 

Na última década, as campanhas de saúde pública contra a malária mostraram-se ineficazes pelo aparecimento de resistência aos medicamentos cujo controlo supera os meios técnicos e financeiros dos países em vias de desenvolvimento, os mais afectados por esta doença.
 

 

A resistência à cloroquina, o medicamento antipalúdico mais barato e de uso mais generalizado, está a estender-se rapidamente por África.
 

 

Além disso, a utilização de insecticidas está limitada por questões relacionadas com o meio ambiente, recorda a Organização Mundial de Saúde (OMS).
 

 

Esta resistência dificulta a luta contra o mosquito "Anopheles gambiae", que pode chegar a picar centenas de vezes num só dia.
 

 

A OMS e os seus parceiros trabalham há mais de dez anos na investigação genética aplicada ao paludismo e, a partir dos dados hoje disponíveis, os cientistas vão poder desenvolver novos instrumentos de luta contra esta doença, como agentes repelentes ou novos medicamentos.
 

 

No entanto, o director do TDR assinalou que, à semelhança do que tem acontecido no caso do genoma humano, será necessário tempo para que se comecem a utilizar os resultados provenientes desta investigação genética.
 

 

"Mas temos agora informação suficiente para podermos trabalhar 24 horas diárias para encontrar soluções que possam salvar milhões de vidas", afirmou Carlos Morel.
 

 

Fonte: Lusa

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