Genoma Humano: Uma «arma» com múltiplas aplicações
26 outubro 2001
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Genoma perfeito não há. A maior parte dos geneticistas afirmam que cada indivíduo possuei entre seis a oito defeitos genéticos.
 

 

Utilizar o conhecimento da sequenciação do genoma humano para discriminar um indivíduo é a principal ameaça que a bioética pretende evitar, segundo Daniel Serrão, presidente do segundo congresso nacional da disciplina.
 

 

«A dignidade humana está presente em cada homem, quer possua um genoma perfeito ou não», sublinhou à agência Lusa o professor.
 

 

Aliás, um genoma perfeito parece ser uma miragem já que, segundo especialistas presentes no encontro, todos os indivíduos possuem entre seis a oito defeitos genéticos.
 

 

O segundo Congresso Nacional de Bioética, que começou ontem e acaba hoje na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), tem por tema de fundo «Genoma e a Dignidade Humana».
 

 

Durante os dois dias do encontro, os especialistas presentes (de áreas que vão desde a Genética ao Direito, passando pela Filosofia e por questões ambientais) vão tentar explicar aos mais de 400 participantes de que forma o conhecimento mais aprofundado do genoma vai, ou não, afectar a dignidade humana.
 

 

«É preciso dar a informação à opinião pública porque a bioética é uma das matérias em que os políticos não podem decidir juntos o futuro», sublinhou Daniel Serrão.
 

 

A Declaração Universal do Genoma Humano
 

 

Neste sentido, esteve presente no Porto uma das principais responsáveis pela elaboração da Declaração Universal do Genoma Humano, Noelle Lenoir, que actualmente preside ao Grupo de Conselheiros em Bioética da Comissão Europeia.
 

 

O documento, elaborado pela UNESCO, foi aprovado por unanimidade em Assembleia Geral das Nações unidas e consagra, entre outros, o principio da não-discriminação.
 

 

«Ninguém pode ser afastado, por exemplo, de um emprego por ter impresso nos seus genes uma predisposição genética para determinada doença», sublinhou a especialista francesa.
 

 

Apesar dos testes genéticos fiáveis e generalizados serem uma promessa que se espera realizada apenas entre os próximos cinco a dez anos, estão já bem presentes as questões éticas que se vão colocar.
 

 

Por isso, a Declaração assinada na ONU assegura também o direito à não-informação.
 

 

«Um indivíduo pode não querer saber se tem alguma deficiência grave a nível genético», explicou Lenoir.
 

 

Se esse direito se mantém quando a anomalia genética puder afectar gerações futuras é uma questão mais controversa entre os especialistas.
 

 

Por outro lado, a generalização deste tipo de testes poderá conduzir a exageros.
 

 

«As sociedades e os indivíduos mais ricos poderão querer utilizar esta tecnologia para saber, por exemplo, se têm propensão para a obesidade», esplicou Natália Oliva Teles, investigadora no Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães, no Porto.
 

 

O aumento de telefonemas e interrogações do público e dos doentes sobre esta matéria foram as principais alterações que esta geneticista notou após a sequenciação do genoma humano, já que na prática clínica ainda nada mudou depois de completo o esboço do livro da vida.
 

 

A sequenciação do genoma humano ainda foi o primeiro (e pequeno) passo de uma longa caminhada
 

 

Aliás, os cientistas presentes são unânimes em reconhecer que a sequenciação foi apenas o primeiro (e mais fácil) passo de uma longa caminhada.
 

 

Depois de identificados o genes, falta compreendê-los, ou seja, identificar a sua função e as interacções entre eles.
 

 

«Apesar de ainda não ser certo o número de genes do genoma humano, está confirmado que possuímos muito menos que aquilo que se pensava», sublinhou Alberto Barros, professor catedrático de Genética da FMUP.
 

 

Ou seja, a complexidade do homem não assenta na quantidade de genes que possui mas nos mecanismos de regulação que existem entre eles.
 

 

Aliás, de acordo com o investigador, nem sequer é correcto falar em «O» genoma humano uma vez que já foram detectados 1,4 milhões de polimorfismos (variações na sequência do ácido desoxirribonucleico - ADN).
 

 

Segundo Maria do Céu Patrão-Neves, do Centro de Estudos de Bioética da Universidade dos Açores, não foi a genómica (construção do mapa dos genes) nem vai ser a proteómica (estabelecimento de uma ligação entre o conhecimento do genoma e o comportamento celular) que vão «beliscar» a identidade humana.
 

 

«A realização do homem não se esgota na sua materialização. É na percepção das suas forças e fraquezas que assenta a dignidade humana», sublinhou.
 

 

Logo, quanto maior for o conhecimento de si, nomeadamente do seu património genético, maior será o desenvolvimento dessa identidade.
 

 

«O homem vai continuar à procura de si, sempre com a certeza tranquilizadora de que nunca se vai encontrar», concluiu a investigadora açoreana.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI - Médicos Na Internet
 

 

Fonte: Lusa

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