Eva, a primeira filha da clonagem?

Nascimento do primeiro bebé-clone repudiado pelos cientistas mundiais

30 dezembro 2002
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Eva, filha de pais norte-americanos, poderá ser o primeiro clone humano. A notícia do nascimento foi apresentada na semana passada, dia 27, pela suposta criadora, a química francesa Brigitte Boisselier, 46, directora da Clonaid, uma empresa fundada pelo movimento raeliano, que acredita na vida eterna pela clonagem.
 

 

Apesar de os dados da experiência não terem sido divulgados, durante uma conferência de imprensa, a química francesa foi mais longe ao afirmar que um outro bebé clonado deverá nascer esta semana na Europa, e será filho de um casal de lésbicas.
 

 

A notícia tem provocado o cepticismo e indignação na comunidade médica e científica. Cientistas de todo o mundo desafiam Boisselier a provar a clonagem reproduzindo o código genético do bebé e o do adulto original. Em resposta, a química prometeu apresentar provas nos próximos dias.
 

 

Especialistas na área não se cansam de advertir para os perigos observados na clonagem de animais: anomalias no coração, nos pulmões, no sistema imunológico e no fígado, além de obesidade, alto índice de mortalidade antes ou imediatamente depois do nascimento, cancro e envelhecimento precoce.
 

 

Cientistas contra
 

 

Ainda na semana passada várias foram as vozes que se ergueram contra o suposto nascimento do primeiro clone humano. O geneticista francês Axel Kahn foi o primeiro a repudiar publicamente o anúncio. Para o especialista, «não existe rigorosamente nenhuma prova» do feito. «E enquanto não for apresentada, trata-se de pura propaganda».
 

 

A Associação de Investigadores Científicos Alemães (DFG) disse não acreditar no nascimento de um bebé clonado. «Não acreditamos», declarou a porta-voz da DFG, Eva Maria Streier. Mas se for verdade, terá sido «uma atitude completamente irresponsável», acrescentou.
 

 

Também o ginecologista italiano Severino Antinori – que no Verão passado anunciou ter criado um clone que irá nascer em Janeiro- afirmou ter muitas duvidas do nascimento do bebé clonado anunciado pelo movimento raeliano. Em declarações à agência Ansa, Antinori disse que «uma notícia deste tipo, sem ter por base explicações científicas, corre o risco de criar confusão.»
 

 

ONU, EUA e Vaticano
 

 

As posições oficias também não se fizeram esperar. O secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, «não enviará flores» aos raelianos, disse o porta-voz da ONU, Fred Eckhard, após o anúncio do nascimento pela empresa Clonaid. Eckhard afirmou que «na ausência de dados científicos, este anúncio não pode ser aceite como um facto».
 

 

Entretanto, continua sem ser aprovado pela ONU um texto que proíbe a clonagem humana com fins reprodutivos, devido à pressão dos Estados Unidos e do Vaticano.
 

 

Os Estados Unidos querem incluir na proposta, além da clonagem reprodutiva, restrições também à chamada clonagem terapêutica, isto é, à utilização de técnicas de clonagem para obter células capazes de proporcionar novos tratamentos para uma série de doenças.
 

O Vaticano também condenou o anúncio feito pela química francesa Brigitte Boisselier, o qual qualificou de «mentalidade brutal, privada de qualquer consideração ética e humana».
 

 

«O anúncio, sem qualquer elemento de prova, já recebeu a condenação moral de uma grande parte da comunidade científica internacional. Porém, o anúncio em si é a expressão de uma mentalidade brutal, privada de qualquer consideração ética e humana», declarou o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls.
 

 

FDA investiga
 

 

Entretanto, a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) anunciou que está a investigar a afirmação da seita raeliana de ter clonado um humano.
 

 

«Queremos fazer testes para saber se a clonagem foi de facto realizada e, em caso afirmativo, se as nossas leis foram violadas. Embora a clonagem humana não seja ilegal nos Estados Unidos, qualquer experiência com humanos precisa da autorização da FDA», disse o porta-voz da FDA, Brad Stow.
 

 

Apesar de a seita afirmar ter realizado a clonagem fora dos Estados Unidos, a FDA afirmou que irá deslindar o caso. Por enquanto, o organismo conseguiu um acordo com a seita, na qual se compromete a não fazer nenhuma investigação no país.
 

 

Quem são os raelianos
 

 

O movimento raeliano foi fundado em 1975 por um jornalista desportivo francês Claude Vorilhon, autodenominado Rael. Segundo os seus relatos, terá sido abduzido por extraterrestres na década de setenta e, após a experiência, teria se transformado em uma espécie de messias. As criaturas, nomeadas por ele de «elohim» (palavra hebraica que significa Deus), seriam os criadores de todas as formas de vida existentes no planeta. Os elohim confiaram a Rael a missão de construir uma «embaixada» na Terra para recebê-los. Para isso, fundou uma «religião ateísta», com um conselho científico, sacerdotes e adeptos.
 

 

Rael prega que a humanidade pode atingir a imortalidade por meio da clonagem. Também professa a «meditação sensual», que «permite aos praticantes alcançar o orgasmo cósmico», a hierarquia entre as raças humanas e a «eugenia», ou melhoramento pela manipulação genética.
 

O movimento raeliano afirma ter 55 mil membros espalhados em 84 países. A maioria está no Canadá, Estados Unidos, Suíça e França.
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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