Estudo a multirresistência a antibióticos alerta para necessidade de alteração de paradigma

Investigação divulgada no “EBioMedicine”

26 agosto 2015
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Cientistas nos EUA descobriram um mecanismo de resistência inesperado em bactérias patogénicas que pode alterar a forma como os antibióticos são desenvolvidos, testados e prescritos, revela um estudo publicado no jornal científico “EBioMedicine”.
 

As bactérias são criaturas bastante caprichosas. Se em testes de laboratório apresentam um comportamento, por vezes, no organismo apresentam outro bastante diferente. Um caso exemplar é o da Salmonella, que é morta por antibióticos no laboratório, mas que se torna altamente resistente no organismo.
 

De acordo com Michael Mahan, biólogo na Universidade da Califórnia – Santa Bárbara, nos EUA, isto pode explicar por que motivo alguns antibióticos não são eficazes em alguns doentes, embora os testes em laboratório apontem para o contrário.
 

“Nós não somos placas de petri e precisamos de rever a forma como desenvolvemos, testamos e prescrevemos antibióticos”, alerta Mahan, em comunicado difundido pela universidade.
 

De acordo com este investigador, os métodos utilizados atualmente para testar a resistência das bactérias aos antibióticos não refletem os ambientes reais e variados no organismo onde as bactérias sobrevivem. Isto, na sua opinião, pode muito bem colocar em causa a validade dos testes à verdadeira eficácia de um antibiótico.
 

“Prescrever o antibiótico errado poderá não só não conseguir eliminar a infeção como ainda criar a tempestade perfeita para o aparecimento de superbactérias em pacientes infetados”, acrescenta.
 

A investigação, liderada por Mahan, revelou dois importantes achados: as bactérias tornam-se resistentes apenas a alguns antibióticos e empregam esta estratégia de defesa apenas em algumas partes do corpo. Isto quer dizer que quando um paciente não está a responder a um determinado antibiótico que os testes de laboratório previram que fosse eficaz, em vez de aumentar a dose ou a duração do tratamento com esse antibiótico, uma opção terapêutica possivelmente mais eficaz será prescrever outro fármaco.
 

Para esta investigação, Mahan e seus colegas começaram por utilizar a Salmonella, uma bactéria responsável por provocar intoxicação alimentar e septicemia. Esta bactéria reside nos leucócitos, as células responsáveis pela defesa do organismo em caso de infeção. Os cientistas procuraram mimetizar o ambiente intracelular onde é possível encontrar a Salmonella e descobriram que esta se tornou muito resistente a determinados antibióticos.
 

De seguida testaram a Yersinia, um bactéria que também provoca intoxicação alimentar e septicemia, mas que vive fora das células hospedeiras, no intestino. Ao mimetizarem o ambiente extracelular dos intestinos, os cientistas verificaram o mesmo comportamento de resistência a determinados antibióticos.
 

Estes dois exemplos indicam que diferentes tipos de bactéria podem apresentar o mesmo comportamento de resistência a antibióticos.
 

Tendo por base este estudo, Mahan aconselha a inclusão de modelos animais numa fase mais precoce do desenvolvimento e teste de antibióticos de forma a ter presente um meio que possa mimetizar “os ambientes bioquímicos específicos que desencadeiam a resistência no organismo”.
 

No entanto, para este investigador o potencial resultado mais entusiasmante deste estudo poderá ser o facto de este revelar que o fármaco necessário para tratar superbactérias multirresistentes poderá já existir, mas “ter sido excluído como antibiótico por não matar eficazmente bactérias nas placas de petri, embora possa funcionar bem no tratamento de pacientes com infeções resistentes a vários fármacos”.  
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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