Esclerose múltipla: substituição do sistema imunitário impede progressão

Estudo publicado na revista “The Lancet”

15 junho 2016
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Um processo que elimina completamente o sistema imunitário e o regenera posteriormente, utilizando células estaminais, pode suprimir todos os sinais de inflamação cerebral prejudicial em indivíduos com esclerose múltipla precoce e agressiva, bem como facilitar uma recuperação duradoura, dá conta um estudo publicado na revista “The Lancet”.
 

A esclerose múltipla afeta aproximadamente 2,3 milhões de pessoas em todo o mundo e pode causar sintomas que variam desde visão turva à extrema fadiga e paralisia parcial ou completa. Esta doença ocorre quando o sistema imunitário, que habitualmente protege contra organismos causadores de doenças, ataca erradamente o próprio sistema nervoso central, que inclui o cérebro, espinal medula e o nervo ótico. No início da doença, os pacientes têm frequentemente episódios temporários de agravamento dos sintomas acompanhados de inflamação ativa no cérebro.
 

Neste estudo, os investigadores da Universidade de Ottawa, no Canadá, utilizaram um tratamento denominado autoablação e transplante autólogo de células estaminais hematopoiéticas. No procedimento é utilizado um fármaco que obriga as células estaminais hematopoiéticas a migrarem da medula óssea para o sangue. Estas células estaminais são recolhidas do sangue, purificadas e congeladas.
 

Posteriormente, são administradas doses elevadas de quimioterápicos para eliminar o sistema imunitário do paciente. As células estaminais são transplantadas de novo para o mesmo paciente, podendo dar assim origem a um novo sistema imunitário que não tem qualquer "memória" do padrão anterior que atacava o sistema nervoso central.
 

O ensaio clínico incluiu 24 pacientes com esclerose múltipla agressiva e recidiva, que foram acompanhados entre quatro a 13 anos após o tratamento.
 

O estudo apurou que nenhum paciente teve recidiva da doença, enquanto antes do tratamento os indivíduos tinha uma média de 1,2 recidivas por ano. Não foram detetadas novas lesões inflamatórias ativas no cérebros dos pacientes, comparativamente com as 188 observadas anteriormente.
 

Os investigadores verificaram que nenhum paciente necessitou de fármacos específicos para esclerose múltipla para controlar a doença. Verificou-se que 70% dos pacientes tiveram uma completa remissão da progressão da doença. A taxa média de diminuição do volume cerebral, uma medida que está habitualmente à progressão da esclerose múltipla, voltou a níveis que estão associados ao envelhecimento normal.
 

O estudo apurou ainda que 40% dos participantes apresentaram uma inversão duradoura dos sintomas no que diz respeito à perda de visão, fraqueza muscular e problemas de equilíbrio. Alguns participantes conseguiram voltar aos seus empregos ou escolas, recuperaram a capacidade de conduzir, casaram e tiveram filhos.
 

“O nosso ensaio é o primeiro a demonstrar uma supressão completa e a longo prazo de toda a atividade inflamatória em indivíduos com esclerose múltipla”, revelou, em comunicado de imprensa, um dos líderes do estudo, Harold Atkins.
 

“Isto é muito entusiasmante. Contudo, é necessário notar que esta terapia pode ter efeitos secundários graves e é apenas apropriada para uma pequena parte de pacientes com esclerose múltipla muito ativa. Os indivíduos com esclerose múltipla e com incapacidade significativa durante um longo período provavelmente não beneficiam”, concluiu o investigador.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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