Emoções: o feto também sente

Revela estudo feito na Maternidade Bissaya Barreto

25 novembro 2001
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O feto tem vida emocional, confirma a investigação que o psicólogo Eduardo Sá começou a desenvolver, há cerca de dez anos, na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. As observações de grávidas e de exames ecográficos permitem afirmar que, a partir do quarto mês de gravidez, o feto se emociona, «angustia-se, constrange-se com as expressões mais rígidas da personalidade da mãe, alegra-se e aviva os seus ritmos, deprime-se, a ponto de inibir o seu crescimento», escreve no seu mais recente livro «Psicologia do Feto e do Bebé», editado pela Fim de Século.
 

 

As conclusões a que o grupo de investigadores coordenado por Eduardo Sá tem vindo a chegar integram-se nas explicações da neurociência de hoje acerca das competências do feto. No essencial, que os bebés demonstram, logo ao nascer, a capacidade de aprender, desde que existam, à sua volta, emoções e disponibilidade para criar laços afectivos.
 

 

Sabe-se, desde o início do século, que é ainda dentro do útero materno que o bebé começa a desenvolver capacidades sensoriais como a audição, a visão, o gosto, o tacto. Várias experiências têm mostrado que o feto aprende a reconhecer a voz da mãe, distingue a luz e engole, antes de nascer. Mas outros estudos realizados mais recentemente vieram mostrar como ele também tem competências interactivas, como reagir à vida emocional da mãe. «... tudo o que a relação gera (a partir, inclusivé, da vida intra-uterina) tem uma preponderância essencial no comportamento dos bebés: a ansiedade maternal, na gravidez, por exemplo, pode suscitar ansiedade neonatal», afirma Eduardo Sá. No seu entender, o feto tem uma realidade mental que «se afirma autonomamente a partir do 5.º mês de gestação».
 

 

Bebé «trabalhado»
 

 

Atendendo a que «o feto nasce num plano mental muito antes de nascer no plano obstétrico», o bebé «deve ser "trabalhado" na cabeça e na relação dos pais», defende Eduardo Sá, explicando que do sucesso desta intervenção também «depende a cura da depressão fetal e a consequente reanimação psicológica do bebé».
 

 

Quando, em determinados casos, este acompanhamento não se realiza ou não tem êxito - acrescenta este psicólogo - o bebé nasce doente. «São estes bebés que surgem na literatura com atrasos de desenvolvimento, com intolerância inata à frustração, com maior ou menor resiliência».
 

 

Em nome da saúde dos bebés, Eduardo Sá recomenda que «as políticas de saúde tomem a gravidez muito para além das consultas de rotina que a prudência clínica recomenda», de forma a que a gravidez «seja o processo que vá do planeamento da gravidez ao ano do bebé, pelo menos como forma a que a gestação de uma família acolha e transcenda a idade gestacional do bebé».
 

 

As capacidades de aprendizagem dos bebés através das relações que estabelecem é tema também abordado pelos psicólogos Nuno Reis e Satya Sousa em artigos inseridos no mesmo livro, «Psicologia do Feto e do Bebé». São textos em que descrevem a sua experiência como investigadores no grupo para-universitário «Crianças para Sempre, círculo de estudos do bebé, da criança, do adolescente e da família», criado com Eduardo Sá. Um marco no percurso ao longo do qual têm compreendido como «os bebés possuem essa característica extraordinária de serem capazes de nos instruir acerca deles próprios e de nós mesmos», como afirma Nuno Reis.
 

 

Fonte: Público

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