Em nome de Craig Venter

Investigador usou o seu próprio material genético para descodificação do genoma

28 abril 2002
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Planeado para estar pronto em 2003, o Projecto Genoma Humano (PGH) - desenvolvido com financiamento público-, divulgou os resultados no dia 26 de Julho de 2000.
 

 

A verdade é que o conhecimento da sequenciação completa do genoma criou uma verdadeira «corrida». Enquanto, os cientistas do PGH, financiados com dinheiro público, se dedicaram ao estudo do material genético, as equipas da Celera Genomics, lideradas por Craig Venter - investigador que abandonou o PGH para criar a sua própria empresa privada - trabalharam durante 24 horas por dia para chegar, em primeiro lugar, ao final da sequenciação.
 

 

E conseguiram. Foi a Celera Genomics quem, em primeiro lugar, anunciou os cerca de 3,5 mil milhões de pares de bases. Este fabuloso «livro da vida» constam informações preciosas para compreender o passado e agir no futuro. As próximas décadas serão, por isso, plenas em descobertas de novas terapias, testes e diagnósticos.
 

 

Mas, afinal, o material genético que deveria ter sido recolhido de dadores anónimos veio, em grande parte, do director da Celera Genomics. Em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times, Craig Venter revelou ter utilizado o seu próprio material genético em parte das investigações.
 

 

Em proveito próprio ou em prol da humanidade, o cientista disse ter conseguido saber, através do estudo, que é portador de uma variante genética relacionada com o risco de sofrer da doença de Alzheimer e de uma deficiente metabolização da gordura corporal.
 

 

Até ao momento, sabia-se que para a sequenciação do genoma humano fora utilizado material genético extraído de dados anónimos. No caso da Celera, tratar-se-ia de um grupo de 20 pessoas de cinco raças distintas. Que supostamente deveriam permanecer desconhecidas.
 

 

«Quem não quer conhecer o próprio genoma?». Foi esta a resposta de Venter ao jornalista do New York Times que o questionava sobre esta estanha decisão de ter substituído as amostras pelos seus próprios dados genéticos. Venter espera justificar assim os métodos de recolha genómica. Mas, esta mesma questão levanta muitas outras: «A quem interessa os dados de Venter?» «E serão os dados de Venter os mais adequados para uma amostra que deveria ser o mais diversificada possível?» «Porque razão terá decidido informar o público?».
 

 

De surfista a multimilionário
 

 

O passado de Graig Venter pode explicar as suas estranhas atitudes. Cientista de mérito reconhecido na área, Venter é também um homem vaidoso e ambicioso. Foram estes valores que o «empurraram» a sair do PGH para enriquecer com a sua própria empresa: a Celera Genomics.
 

 

A sua biografia é muito diferente da de um cientista clássico. Surfista na juventude , Venter passou também pela Guerra do Vietmam, onde foi paramédico num hospital de campanha. Só depois se licenciou em bioquímica e concluiu doutoramento.
 

 

Diz quem o conhece que é um homem egocêntrico. Em entrevista ao NYT, Venter não nega, mas vai dizendo estar habituado com as críticas.
 

 

James D. Watson, cientista norte-americano que, em conjunto com Francis Crick, determinou a estrutura do ADN (material que constitui os genes) explicou ao jornal nova iorquino não se surpeender com a revelação. «Parece mesmo coisa à Craig».
 

 

Para John Sulston, director doe Sanger Center in England, a notícia não tem qualquer significado. Francis Collins, director do programa de pesquisa genómica do National Institutes of Health nem sequer quis comentar o sucedido.
 

 

Mas os membros do comité científico da Celera expressaram reprovação pelo facto de terem aprovado um processo anónimo que, afinal, foi subvertido.
 

 

Arthur Caplan, cientista da Universidade da Pennsylvania, explicou que qualquer genoma pessoal deve permanecer no anonimato. «É um mapa de nós próprios e estou profundamente desiludido por este estar ligado a uma pessoa»
 

Caplan acrescentou que, «afinal, a sequenciação do genoma humano foi uma oportunidade de glória pessoal, bem como uma descoberta científica. Venter enfatizou o primeiro motivo.»
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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