Efeitos epigenéticos: como são herdados e qual a duração do seu impacto?

Estudo publicado na revista “Science”

15 julho 2014
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Quando uma mulher grávida está desnutrida, o seu filho apresenta, relativamente à média, um risco maior de desenvolver obesidade e diabetes tipo 2, em parte devido aos efeitos epigenéticos. O estudo publicado na revista “Science” demonstrou que esta memória da nutrição ao longo da gravidez pode ser herdada através do esperma da descendência masculina para a geração seguinte, aumentando também o risco de doença nos netos.
 

O mecanismo através do qual herdamos as características dos pais é bem conhecido. Contudo, ainda não se sabe ao certo a forma como efeitos epigenéticos são herdados. Os efeitos epigenéticos mais conhecidos são causados por um mecanismo denominado por metilação na qual uma molécula metil se liga ao ADN, ativando ou reprimindo os genes.
 

Neste estudo, os investigadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido e da Joslin Diabetes Center Medical School/Harvard, nos EUA, decidiram investigar como os efeitos epigenéticos eram herdados de uma geração para outra, e durante quanto tempo eles tinham impacto.
 

Através de estudos realizados em ratinhos, os investigadores observaram que a desnutrição ao longo da gravidez tinha efeitos no tamanho da descendência masculina e mesmo que os animais fossem alimentados com uma dieta normal, desenvolviam diabetes. A descendência destes últimos ratinhos também apresentava as mesmas características, mesmo que as suas mães nunca tivessem estado desnutridas ao longo da gravidez.
 

“Quando a alimentação é escassa, as crianças podem nascer programadas para combater a desnutrição. Assim, perante uma abundância alimentar, o organismo não consegue fazer frente e pode desenvolver doenças metabólicas como a diabetes. Temos de entender como se processam estas adaptações entre as gerações, uma vez que estas nos podem ajudar a compreender os níveis atuais de diabetes tipo 2 e obesidade”, revelou, em comunicado de imprensa, um dos autores do estudo, Anne Ferguson-Smith.
 

O estudo apurou ainda que as alterações induzidas pela metilação ocorriam apenas em determinadas regiões do genoma e que inesperadamente estes padrões não eram herdados indefinidamente. Ao analisaram o ADN dos netos cuja avó tinha estado desnutrida durante a gravidez, verificaram que os padrões de ADN tinham desparecido.
 

“De um ponto de vista evolutivo estes resultados fazem sentido. O ambiente muda e as pessoas podem passar de famintos a terem uma alimentação em abundância, por isso o nosso organismo tem de se adaptar. Assim, as alterações epigenéticas podem de facto desaparecer. Estes resultados podem fornecer algum otimismo na medida em que a influencia que a epigenética tem na obesidade e diabetes da nossa sociedade atual pode ser limitada e reversível”, conclui uma das coautoras do estudo, Mary-Elizabeth Patti.

 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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