E se a peste regressa?

Praga medieval pode ser a mais eficiente arma biológica já criada

17 dezembro 2001
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Em 1980, uma mulher de 47 anos residente em Lake Tahoe, Califórnia, viu morrer o seu gato de estimação, vítima de uma infecção aguda. Três dias depois, foi ela própria que deu entrada num hospital do Estado. Os sintomas incluíam febre alta, dores no peito e falta de ar. O diagnóstico feito pela equipa médica apontava para pneumonia e, passadas algumas horas, a mulher acabou por morrer.
 

 

Quatro dias após a sua morte, as análises revelaram que a vítima morreu devido à peste. De imediato, foi mobilizada uma equipa de médicos para administrar antibióticos profiláticos aos colegas de trabalho.
 

 

Para a maioria das pessoas, as epidemias de peste ficaram encerradas no passado medieval. Mas não é bem assim. Na verdade, a peste negra devastou, em grande escala, os habitantes da Europa durante a Idade Média, matando mais ou menos uma em cada quatro pessoas. Até meados do século XVIII, consta que a epidemia de peste terminara. Mas a peste nunca chegou a desaparecer completamente, relata um trabalho de investigação publicado no site Discovery. Mais de 10 milhões de pessoas morreram da doença na Índia, há menos de um século atrás.
 

 

E este ritmo lento em que a doença avança hoje conduz a uma série de perguntas. Como pôde uma doença que, conforme relata o caso da mulher norte-americana, não parece ser altamente contagiosa matar tantos milhões de pessoas num curto período de tempo? E quais são as probabilidades de a peste regressar?
 

 

Para compreender a ameaça da peste, é importante saber não apenas como ela sobrevive e se propaga dentro dos seus hospedeiros, mas também como se difunde entre eles. A bactéria Yersinia pestis, causadora da peste, é provavelmente descendente da Yersinia pseudotuberculosis, que integra um grupo de doenças intestinais relativamente benignas. Em algum momento nos últimos 1 500 a 20 mil anos, a Y. pestis perdeu um conjunto de genes de proteínas chamadas adesinas, que fazem a bactéria aderir às paredes intestinais.
 

Do animal para a pessoa
 

 

Para o microbiólogo Robert Brubaker, especialista em peste da Universidade Estadual de Michigan, nos EUA, sugere que a perda desses genes pode ter capacitado a Y. pestis a avançar pelo hospedeiro com uma velocidade mortal. Derrotando as defesas do organismo ao suprimir a sinalização entre as células imunológicas, cruciais, a peste percorre o sistema linfático em alta velocidade, invadindo órgãos como o baço, os pulmões e, especialmente, o fígado.
 

 

A bactéria normalmente desenvolve-se bem nas populações roedoras, passando de um animal a outro por meio das picadas de pulgas contaminadas com a peste. A maneira como ela é transmitida aos humanos determina como a doença vai se desenvolver na pessoa. Se uma pessoa é picada por uma pulga contaminada com peste, bubões -inchaços nos nodos linfáticos, extremamente dolorosos e do tamanho de ovos- que se desenvolvem no pescoço, axilas ou virilhas. Os bubões estão na origem do nome de um tipo de peste, a bubónica. Sem um tratamento rápido e maciço à base de antibióticos, de 50 a 60 por cento dos contaminados com esse tipo de peste morreriam.
 

 

Uma forma ainda mais mortífera de peste, a pneumónica, desenvolve-se quando a pessoa inala a Y. pestis. Nos Estados Unidos, os casos de peste tendem a surgir na forma bubónica, geralmente entre habitantes do sudoeste americano que foram expostos animais selvagens.
 

São poucos os casos na América que relatam este tipo de contaminação de animais para humanos (zoonose). E a causa específica é sempre uma picada de pulga ou a exposição directa a um animal doente.
 

 

Evolução
 

 

Mas se a contaminação é, como já referimos, de difícil propagação, então, porque razões, as epidemias de peste se disseminaram e mataram milhões de pessoas? A primeira peste começou em 542 d.C. e arrastou-se por cerca de 50 anos, matando 100 milhões de pessoas. A peste negra da Idade Média matou provavelmente mais de um quarto da população da Europa. A terceira pandemia de peste, que aconteceu na Ásia no início do século XX, matou 10 milhões de pessoas.
 

 

Como muitos outros cientistas, May Chu, chefe da secção de referências diagnósticas do ramo de zoonoses bacterianas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), atribui a difusão da peste à presença de condições de vida medievais: pulgas, ratos, falta de higiene, subnutrição e superlotação.
 

 

O grande especialista em peste Wu Lien-teh e seus colaboradores determinaram que a peste bubónica não foi transmitida de pessoa para pessoa durante a terceira pandemia, mas que era necessário uma picada da pulga contaminada com Y. pestis para que a doença fosse devidamente transmitida.
 

 

Pulga humana
 

 

No entanto, cronistas medievais descrevem a doença como altamente contagiosa, a qual se propagava de pessoas para pessoa. Será então possível que, em determinado momento da história de uma das três pandemias, a peste tenha realmente se transformado numa doença humana e que, por isso, não dependesse da transmissão por ratos contaminados?
 

 

Poderia acontecer de duas maneiras explicam os especialistas entrevistados pela Discovery. Kenneth Gage, chefe do sector de peste dos CDC, observa que, historicamente, a peste pode ter sido transmitida entre humanos pela chamada pulga humana, a Pulex irritans, ou por transmissão aérea. Pode a peste negra ter começado como doença transmitida por pulgas e então, durante uma epidemia, ter passado por uma adaptação e se tornado uma doença altamente transmissível, carregada pelo próprio ar?
 

 

Bioterrorismo e a nova vacina
 

 

Segundo os especialistas, entrevistados pela Discovery, é possível. A virulência de uma doença transmitida pela pulga humana, adiantam os entrevistados, deve apresentar um aumento considerável, o que causaria um avanço mais rápido da doença e uma incidência consideravelmente mais alta de mortes.
 

 

A possibilidade de virulência e transmissibilidade aumentadas à medida que a peste circula entre humanos torna apavorante o desenvolvimento de uma peste que seja capaz de resistir ao ataque de antibióticos. Especialistas russos acreditam que a peste é tão transmissível que praticamente todas as pessoas que forem expostas a uma pessoa contagiosa serão contaminadas com a peste pneumónica. Ken Alibek, ex-primeiro vice-director da Biopreparat, a antiga organização soviética encarregada de armas biológicas, diz que esse termo representa o número de casos de uma doença dividido pelo número de pessoas expostas ao patogeno. "A arma da peste foi considerada uma das mais eficazes já criadas pela União Soviética", acrescenta.
 

 

Se os antibióticos de primeira linha se revelassem inúteis contra um possível ataque por aerossol, quase todas as pessoas expostas a doses de peste com grau capaz de contaminar provavelmente iriam morrer, mas não antes de terem transmitido a infecção a muitas outras pessoas.
 

 

No momento, não se sabe se ainda algum laboratório russo ainda efectua testes com este tipo de arma. Boris Ieltsin fechou o departamento de investigação com armas biológicas da Biopreparat em 1992. Em resposta à ameaça do bioterrorismo, cientistas do Instituto de Investigação Médica com Doenças Infecciosas do Exército americano desenvolveram uma nova vacina à base de proteínas recombinantes.
 

 

Diferente das vacinas mais antigas, a nova já mostrou ser eficaz contra a peste pneumónica em modelos animais. A vacina deve interromper os surtos esporádicos e de curto prazo que ainda ocorrem em regiões endémicas do mundo. Variedades naturalmente resistentes a antibióticos surgiram duas vezes nos últimos anos em Madagáscar.
 

 

É possível que a peste nunca chegue a ser erradicada, porque tende a esconder-se em reservatórios animais. Mas, por enquanto, a melhor defesa contra a peste ainda é a vigilância.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI - Médicos Na Internet
 

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