Dor de cabeça – a dor de todos os tempos

No Antigo Egipto, a cura estava algures entre a medicina e as divindades

23 janeiro 2002
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Essa dor de cabeça não vai embora? Ou desaparece para voltar furtivamente e assombrar a sua vida? E você, que já experimentou todos os comprimidos que tinha em casa, todos os chás que havia para tomar e nem as técnicas de relaxamento o ajudam, já não sabe o que fazer? No Antigo Egípto a cura era procurada entre a esfera divina e os medicamentos preparados pela sapiência dos curandeiros.
 

 

Num artigo publicado em Dezembro na revista científica Chephalgia, A. Karenberg, especialista em história da medicina e C. Leitz, egiptólogo, ambos da Universidade de Colónia (Alemanha), descrevem como os antigos egípcios lidavam com a dor de cabeça. Este artigo resulta do estudo de oito papiros datados desde o ano 1800 a.C. até ao ano 1200 a.C., todos com referências a tratamentos da dor de cabeça.
 

 

A fronteira entre a medicina e a magia: uma «invenção» dos tempos modernos
 

 

Os habitantes do Egípto Antigo recorriam aos medicamentos ao mesmo tempo que apelavam aos deuses para afastar aquela dor de cabeça. Um encantamento ao deus Hórus, entidade divina com corpo de homem e cabeça de falcão, podia ser entoado ao mesmo tempo que era aplicado um emplastro de gordura de burro – saberes medicinais e apelos divinos à mistura para combater esse mal físico que perturba os seres humanos de todos os tempos. Numa entrevista à agência Reuters, Karenberg afirma que «a fronteira entre a magia e a medicina é uma invenção dos tempos modernos.»
 

 

De acordo com Karenberg e Leitz, no período da história egípcia a que os papiros estudados pertencem, os conhecimentos sobre anatomia humana e medicina ainda eram escassos. A cabeça era considerada pelos curandeiros egípcios como o «líder do corpo», já o cérebro não tinha tanta importância como a cabeça – este facto é evidente nas descrições do processo de mumificação, em que este órgão era completamente retirado do corpo e, em alguns casos, nem chegava a acompanhar o corpo na sua viagem pela eternidade após a vida terrena.
 

 

A dor de cabeça, cefaleia de seu nome clínico, era descrita como uma «manifestação demoníaca» embora mais tarde os médicos egípcios tivessem começado a especular sobre a possibilidade de uma causa origem em problemas do próprio organismo, como a digestão incompleta, por exemplo.
 

 

Apelos às divindades...
 

 

No tempo da 22ª dinastia egípcia, as pessoas apelavam à ajuda divina entoando cânticos que invocavam a empatia das divindades, imaginando que mesmo os imortais sofriam deste problema. Num dos papiros pode ler-se:
 

’A minha cabeça! A minha cabeça!’, disse Hórus, ‘O lado da minha minha cabeça!’, falou Thoth, ‘Dor da minha testa!’, respondeu Hórus, ‘A parte superior da minha testa!’, rematou Thoth.
 

Ao entoar estas «queixas divinas», o paciente identificava-se com os deuses Hórus e Thoth. Thoth era o deus dos mágicos e dos homens inteligentes.
 

 

Mas a magia continua com Rá, o deus do Sol, a mandar o paciente recolher-se aos seus «maus templos» ao mesmo tempo que ameaça os «demónios da sua dor de cabeça» com punições terríveis:
 

O tronco do seu corpo será isolado!
 

... e o recurso aos curandeiros
 

 

Contando que os apelos às divindades podiam não ser atendidos, os amaldiçoados pela dor de cabeça também recorriam aos remédios que os curandeiros egípcios preparavam. De acordo com outro texto antigo, um dos medicamentos era descrito da seguinte forma:
 

Faça-se um emplastro feito de pó do crânio de peixe-gato que se esfrega na cabeça do paciente durante quatro dias...
 

Mas as prescrições também podiam ir desde a gordura de cabra ou de burro, passando por produtos vegetais como a raíz de rícino e a extractos de mirra, até aos minerais como o pó de malaquite e a argila. Segundo o relato científico, as «receitas» não diferem muito das utilizadas na medicina grega e romana.
 

 

Mas até mesmo estes remédios eram de inspiração divina. No manuscrito mais antigo estudado por Karenberg e Leitz, um farmacêutico egípcio descreve como a sua cura para a dor de cabeça é preparada pela própria deusa Ísis:
 

Se este remédio for feito para aquele que padece das doenças da cabeça e de todas as coisas ruins e demoníacas, ele ficará bom imediatamente (...) mas deverá ser grato a Ísis.
 

A verdade é que, no Antigo Egipto, para tratar uma dor de cabeça daquelas que nos fazem «perder a cabeça», as pessoas tinham de manter boas relações com a esfera divina ao mesmo tempo que recorriam à sapiência e experiência dos curandeiros da época.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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