Donos "passam" bactérias resistentes a animais

Um ciclo perigoso...

09 janeiro 2002
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Uma mulher norte-americana foi submetida a uma histerectomia- extração total do útero. Durante o tempo de internamento, a paciente contraiu uma bactéria resistente a antibióticos, que normalmente habita nos hospitais. Quando voltou a casa a mulher passou a bactéria a um dos seus cavalos. Um outro caso semelhante aconteceu com um homem que tinha estado em tratamento hospitalar devido a um cancro nos testículos. Também ele “apanhou” uma bactéria do hospital a qual foi passada para o seu cão.  

 

Estes dois casos foram relatados pelo investigador Matthew Oughton, do Hospital Mount Sinai, da Universidade de Toronto, Canadá, durante a apresentação do seu trabalho numa conferência sobre interciências realizada nos EUA. Nos dois casos foram encontradas no dono e no seu animal cepas similares da bactéria.  

 

São várias as doenças que se transmitem do animal para o homem - zoonoses. Mas pouco se fala das doenças que passam do homem para o animal. Apesar de pouco divulgadas, as bactérias que se transmitem do ser humano para o animal podem ser muito perigosas. É que, depois de contrair a bactéria através dos humanos, o animal continua o ciclo e passa novamente para o Homem.  

 

Este investigador canadiano descobriu que a bactéria resistente a antibióticos limitada a hospitais foi identificada em animais domésticos. O que leva a acreditar que alguns bichos contraem a doença através dos próprios donos.  

 

Nestes casos, trata-se da bactéria Staphylococcus Aureus (ver o que é) e é um dos primeiros relatos de infecção resistente a meticilina em animais domésticos.  

Para o principal autor do estudo, "à medida em que a bactéria resistente passa de um hospital para a comunidade, acreditamos que vamos vê-la cada vez mais como um patógeno animal".  

 

Do hospital para a comunidade  

 

Esta bactéria foi observada pela primeira vez em vacas leiteiras no início da década de 1970, mas a infecção estava limitada a grandes hospitais veterinários. "No entanto, ela está a expandir-se", acrescentou.  

Oughton e a sua equipa identificaram 16 animais entre Julho de 2000 e Dezembro de 2001 com infecção com Staphylococcus Aureus resistente a antibióticos. Os animais incluíam cavalos, gatos e cães do Canadá e Austrália.  

 

Quando ocorre uma infecção humana com a bactéria num hospital canadiano, a vítima é isolada imediatamente para prevenir a transmissão do microorganismo. Já nos Estados Unidos, a infecção tornou-se tão comum que os hospitais praticamente não adoptam essas medidas de precaução, destacou o especialista. Com base nas descobertas, alerta o investigador, os veterinários devem estar alerta para as infecções animais com Staphylococcus Aureus resistente a antibióticos.  

 

 

O que é a Staphylococcus Aureus  

 

Pertencente à família Micrococcaceae - contém todos os cocos Gram positivos que produzem catalase. Genéros : Staphylococcus e Micrococcus. Existem 33 espécies, sendo que destas apenas 11 infectam o homem e a única patogénica é mesmo aStaphylococcus Aureus.  

 

Cerca de 50 por cento das pessoas que não trabalham em ambiente hospitalar possuem esta espécie nas mucosas e pele, principalmente na mucosa nasal. Já em pessoas ligadas ao sistema de saúde, este número aumenta para 95 a 100 por cento. Os portadores do S.aureus apresentam períodos com ou sem as bactérias.  

 

Resistência  

 

Antigamente estas bactérias eram sensíveis à penicilina, mas com uso indiscriminado ocorreu selecção de cepas resistentes. Actualmente, no ambiente hospital 99 por cento são resistentes. No ambiente extra-hospitalar cerca de 60 por cento são resistentes.  

 

Paula Pedro Martins  

MNI - Médicos Na Internet  

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