Diabetes : Um amargo de boca que aflige quase meio milhão de portugueses
19 julho 2001
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Uma mistura de ossos, grãos de trigo, areia fresca, terra e água era o tratamento aconselhado para a diabetes mellitus há 3.500 anos, uma "receita" que ficou registada num papiro egípcio.
 

 

Hoje os tratamentos para a doença "com sabor a mel" (do latim "mellitus") são bastante mais sofisticados, mas o número de pessoas afectadas não pára de aumentar.
 

 

"Estima-se que em cada 25 anos duplique o número de diabéticos no mundo", sublinhou o director clínico da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP), Luís Gardete Correia.
 

 

Em Portugal existem entre 400 a 500 mil diabéticos e a doença é a primeira causa de amputações não traumáticas, de insuficiência renal e de enfarte do miocárdio em indivíduos com menos de 40 anos, segundo dados da APDP.
 

 

Combater a obesidade e o sedentarismo da vida moderna são as melhores formas de prevenir a diabetes mais comum (tipo 2), uma verdadeira pandemia, enquanto se aguardam os desenvolvimentos dos milhares de projectos de investigação que avançam em todo o mundo.
 

 

No entanto, vários especialistas contactados pela Agência Lusa são unânimes em considerar que ainda é prematuro fazer previsões sobre a "cura" da diabetes.
 

 

"É difícil falar em cura porque a diabetes envolve um conjunto de alterações no metabolismo e não pode ser tratada como se fosse uma só doença", sublinhou Luís Sobrinho, director do serviço de Endocrinologia do Instituto Português de Oncologia.
 

 

Características
 

A diabetes caracteriza-se pelo aumento dos níveis de açúcar (glucose) no sangue, que em Portugal provoca a morte a mais de 3.000 pessoas por ano, segundo dados da Direcção geral de Saúde.
 

 

Esta doença resulta de uma deficiente capacidade de utilização pelo organismo da principal fonte de energia, a glucose, proveniente da transformação dos açúcares e amidos da alimentação.
 

 

Depois de absorvida, a glucose entra na circulação sanguínea e está disponível para ser utilizada pelas células.
 

 

Mas as células só podem absorver o açúcar, convertendo-o em energia, quando a insulina, produzida no pâncreas, se fixa na superfície das células.
 

 

Na diabetes tipo 1 (também chamada insulino-dependente), a mais rara (que afecta cerca de 30.000 pessoas em Portugal), há um processo inflamatório que destrói as células que produzem insulina no pâncreas, as células Beta.
 

 

Embora ainda se desconheça o que desencadeia esta infecção, sabe- se que é o próprio sistema de defesa do organismo (sistema imunitário) do diabético que ataca e destrói as suas células.
 

 

Quando o pâncreas não segrega nenhuma ou muito pouca insulina, o organismo não pode absorver açúcar do sangue e a sua concentração torna-se demasiado elevada (hiperglicémia).
 

 

Uma vez desenvolvido o problema, não existe forma de ressuscitar as células produtoras de insulina.
 

 

Esta forma da doença afecta sobretudo jovens, que necessitam de terapêutica com insulina para toda a vida.
 

 

"Não é realista pensar a curto prazo em nenhuma forma de prevenção da diabetes tipo 1, já que é muito complicado perceber a génese das doenças auto-imunes", sublinhou Luís Sobrinho.
 

 

No entanto, o director do centro de Biologia da Universidade da Florida (Estados Unidos), Jin-Xiong She, explicou à Agência Lusa que vários laboratórios de todo o mundo estão a tentar encontrar a melhor forma de "prever" quais os indivíduos mais propícios a desenvolver a doença, através de uma combinação de marcadores genéticos e imunológicos.
 

 

"Esta identificação precisa é muito importante, já que não podemos administrar imunossupressores a toda a população", sublinhou Luís Gardete.
 

 

Transplantar o pâncreas ou as células Beta, que produzem a insulina, são técnicas já tentadas, mas que acarretam riscos.
 

 

"Mesmo que o órgão não seja rejeitado, o que acontece muitas vezes, o doente fica dependente para o resto da vida de medicamentos muito agressivos, o que acaba por não ser uma alternativa interessante à insulina", sublinhou Luís Sobrinho.
 

 

De facto, este tipo de intervenção só é habitualmente tentado se à diabetes se junta a insuficiência renal e o paciente precisa também de um transplante de rim.
 

 

A investigação em células estaminais, por enquanto envolta em polémicas ético-legais, poderá ser também importante para a diabetes, já que o que caracteriza as células-mãe é precisamente a sua capacidade de se desenvolverem em qualquer tipo de tecido ou órgão.
 

 

"Teoricamente, é mais fácil "gerar" um pâncreas que um coração ou um cérebro", salientou Luís Sobrinho. Também a descodificação do genoma humano irá beneficiar a investigação neste campo.
 

 

"A diabetes é uma doença com uma forte influência genética e o Projecto do Genoma Humano (HGP) vai acelerar a identificação dos genes que são susceptíveis de causar a diabetes", sublinhou Jin-Xiong She.
 

 

Falta de exercício físico, alimentação pouco faseada, rica em açúcares e gorduras e com poucas fibras ou leguminosas secas são factores que contribuem para que o número de diabéticos em Portugal tenha duplicado nos últimos 15 anos.
 

 

 

Na diabetes tipo 2, um problema que afecta entre 2 a 10 por cento da população mundial, o pâncreas é capaz de produzir insulina.
 

 

 

Alimentação e sedentarismo
 

Contudo, a alimentação incorrecta e a vida sedentária tornam o organismo resistente à acção da insulina (insulino-resistência), obrigando o pâncreas a trabalhar mais e mais, até que a insulina que produz deixa de ser suficiente, altura em que surge a diabetes.
 

 

"Nos Estados Unidos a obesidade é uma epidemia. Se a conseguirmos prevenir, conseguiremos prevenir a diabetes tipo 2", afirmou Roger Unger, professor de endocrinologia da Universidade do Texas.
 

 

Gestos simples como trocar de vez em quando o carro por um passeio a pé ou incluir a sopa no início de cada refeição (que produz rapidamente uma sensação de saciedade) podem ajudar a prevenir a diabetes tipo 2.
 

 

Nesta variante, as principais novidades na investigação são o desenvolvimento de drogas para bloquear a insulino-resistência e para estimular as células Beta.
 

 

Os cientistas têm também concentrado o seu trabalho na melhoria da qualidade de vida do diabético: os mecanismos de auto-controlo da glucose são hoje vulgares e as temíveis seringas foram substituídas por "canetas" coloridas com agulhas finíssimas.
 

 

Dentro de poucos anos, as agulhas poderão fazer parte dos objectos de estimação dos diabéticos se evoluírem como esperado os projectos de "sprays" de insulina (à beira da aprovação nos Estados Unidos pela Food and Drug Administration) e de análogos sintéticos, que permitirão simular a acção das células Beta perdidas.
 

 

Em Portugal, um grupo de investigadores (Centro de Química Estrutural do Instituto Superior Técnico, Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Algarve) está a estudar a acção de compostos de vanádio como mimetizadores da insulina, com vista ao desenvolvimento posterior de um fármaco oral.
 

 

"O objectivo central do projecto é a obtenção de novos complexos que conciliem uma acção eficaz, na normalização dos níveis de glucose, com uma toxicidade mínima", explicou o investigador responsável pelo projecto, João Costa Pessoa, professor no Departamento de Engenharia Química do Técnico.
 

 

Segundo a Associação Norte-Americana para a Diabetes, dentro de vinte anos o número de diabéticos em Portugal rondará os 700 mil.
 

 

 

Lusa
 

 

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