Desenvolvimento económico é condicionado pelo clima

Países mais ricos são os mais frios

14 outubro 2001
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Dois economistas americanos apresentam uma explicação tão antiga quanto surpreendente para o facto dos países do Hemisfério Norte, de clima temperado, serem economicamente mais prósperos do que os países tropicais: o frio.
 

 

William Masters, da Universidade de Purdue (Indiana), e Margaret McMillan, da Universidade de Tufts (Boston), estudaram dados, recolhidos entre 1960 e 1990, sobre o clima global do planeta e sobre a economia mundial e concluíram que a neve e o gelo invernais têm uma grande influência sobre o crescimento e o retrocesso da economia dos países.
 

 

Estas conclusões resultam da pesquisa publicada em Setembro no Journal of Economic Growth. Em entrevista à estação de televisão norte americana ABC, W. Masters afirmou que «Esta é a primeira vez que se conseguiu estabelecer uma relação entre as variações económicas e as diferenças climáticas dos diferentes países.»
 

 

De facto, os dois economistas defendem no artigo publicado naquele jornal que existe uma relação entre o clima e o Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com as conclusões destes dois investigadores, os países de clima temperado tiveram, de uma forma geral, um crescimento económico que conduziu a um elevado nível de rendimento per capita enquanto que o rendimento per capita, nos países de clima tropical depende ou da escala económica do país ou da projecção internacional do seu mercado.
 

 

Os investigadores contaram o número de dias por mês em que a temperatura atingiu valores inferiores a zero e relacionaram esses dados com o crescimento do Produto Interno Bruto e o do rendimento per capita em cada região. M. McMillan expõe desta forma as conclusões do trabalho que realizou em parceria com W. Masters: «Nós encontrámos uma correlação positiva entre o número de dias frios e o crescimento do Produto Interno Bruto.»
 

 

O papel do gelo no desenvolvimento económico
 

 

De acordo com M. McMillan e W. Masters, o gelo desempenha um papel importante na saúde das pessoas ao matar os insectos que transmitem doenças como a febre amarela ou a malária. Assim, há uma estabilidade populacional que proporciona o desenvolvimento económico.
 

 

Além disso, o gelo também aumenta a produtividade do solo pois ajuda a preservar os nutrientes libertados pela decomposição da matéria orgânica no solo. Nos climas tropicais a acção dos organismos decompositores sobre a matéria orgânica do solo, constituída por animais e plantas em decomposição, é mais rápida. Assim, nutrientes como o azoto e o carbono, ao serem mais rapidamente libertados da matéria orgânica pelos decompositores, são removidos do solo ou por lavagem pelas chuvas ou pela passagem para a atmosfera, explicam os autores no seu artigo. O gelo invernal desempenha ainda uma outra função: retém a humidade do solo, preparando-o para a Primavera.
 

 

Desta forma, o desenvolvimento da agricultura foi impulsionado pelas condições climatéricas das regiões temperadas.
 

 

Excepções que confirmam a regra
 

 

No entanto, estes dois investigadores reconhecem que existem excepções à teoria que eles apresentam neste trabalho. É o caso da Coreia do Norte e da Mongólia – ambos países pobres com climas temperados. Segundo W. Masters isto deve-se ao facto de ambos terem governos totalitários. No outro extremo das excepções, W. Masters coloca o exemplo de cidades cidades, como Hong Kong e Singapura, ambas de países tropicais mas que são importantes centros comerciais em termos de economia internacional.
 

 

De acordo com W. Masters «... a maioria dos países pobres encontram-se nos trópicos e as excepções pontuais devem-se ao facto de determinados centros urbanos se terem aberto ao comércio, sem terem ficado dependentes da agricultura.»
 

 

Como todas as grandes economias começaram na agricultura
 

 

Se M. McMillan e W. Masters estiverem certos, então a população humana não mudou muito desde os primórdios da civilização. De facto, uma das explicações mais aceite para o desenvolvimento da civilização humana é precisamente aquela que defende a civilização, tal como a conhecemos, é o resultado da passagem de uma forma de vida nómada para um estilo de vida sedentário dependente da aprendizagem da cultura do solo. Ou seja, a evolução económica das populações humanas começou com o desenvolvimento da agricultura.
 

 

De acordo com Jared Diamond, professor na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, sem a agricultura o homem nunca teria tido o tempo necessário para fabricar as primeiras armas de metal ou para domesticar os primeiros animais pois estas evoluções exigem a permanência das populações num determinado local e, portanto, nunca teriam sido possíveis com um estilo de vida nómada. Por outro lado, o desenvolvimento industrial também só foi possível porque a agricultura se desenvolveu primeiro, abrindo espaço ao desenvolvimento tecnológico progressivo e “à medida das necessidades”.
 

 

É desta forma que os historiadores são unânimes ao afirmarem que todas as grandes economias desenvolveram-se inicialmente a partir da agricultura.
 

 

Até ao momento, as reacções a este trabalho têm sido das mais diversas. «Tem havido muito interesse por este assunto, mas as pessoas têm uma espécie de alergia a qualquer explicação que cheire a determinismo geográfico», afirma W. Masters. «Mas os factores institucionais também têm uma grande importância», conclui este economista.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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