Descoberta ligação entre resistência de bactérias a antibióticos e ao sistema imunitário

Estudos do Instituto Gulbenkian da Ciência

27 julho 2016
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Investigadores do Instituto Gulbenkian da Ciência (IGC) demonstraram pela primeira vez que a resistência de bactérias aos antibióticos e ao sistema imunitário está interligada e que a adaptação das bactérias ao sistema imunitário influencia o espectro de resistência a antibióticos, revelam dois estudos publicados nas revistas científicas “Antimicrobial Agents and Chemotherapy” e “Evolutionary Applications”.
 

As infeções bacterianas requerem uma resposta eficaz do sistema imunitário. Os macrófagos são as células imunitárias que respondem primeiro à infeção bacteriana, reconhecendo, digerindo e matando os microrganismos.
 

Paulo Durão e uma equipa de cientistas do IGC procuraram perceber qual a capacidade de bactérias multirresistentes a antibióticos em sobreviver na presença de macrófagos.
 

Para este estudo, realizado no laboratório de Isabel Gordo, os cientistas utilizaram estirpes de Escherichia coli (E. coli) com mutações que conferem resistência a dois antibióticos, rifampicina e estreptomicina, mutações essas que são comuns em bactérias patogénicas. Os investigadores observaram que estas bactérias poderiam sobreviver melhor dentro dos macrófagos do que as bactérias não resistentes.
 

"As nossas experiências foram realizadas sem antibióticos presentes no meio e ainda assim, no inóspito ambiente encontrado no interior dos macrófagos, as estirpes de E. coli que têm resistência a antibióticos parecem ser mais aptas do que as estirpes sensíveis. Isto significa que o tratamento com antibióticos seleciona as bactérias tanto para a resistência aos antibióticos, como para uma maior resistência ao sistema imune inato", explicou Paulo Durão, em comunicado difundido pelo IGC.
 

Ao mesmo tempo, outros membros da equipa do laboratório de Isabel Gordo investigaram o outro lado da questão: o que acontece quando as bactérias se tornam resistentes ao sistema imunitário?
 

Ricardo Ramiro, primeiro autor deste estudo, realizou uma série de experiências, forçando as bactérias a evoluírem na presença de macrófagos. Como resultado, as bactérias tornaram-se capazes de sobreviver melhor dentro dessas células do sistema imunitário. Os investigadores descobriram que essas bactérias, inicialmente sem qualquer resistência a antibióticos, tornaram-se mais resistentes a uma classe específica de antibióticos, os aminoglicósideos, e mais sensíveis a outras classes de antibióticos.
 

"Este efeito colateral da adaptação bacteriana ao sistema imune pode ser utilizado a nosso favor, para melhor selecionar os antibióticos para o tratamento de infeções", diz Ricardo Ramiro. "Enquanto se adaptam ao sistema imune, as bactérias tornam-se mais sensíveis a algumas classes de antibióticos. Assim, usando esses antibióticos para o tratamento de infeções, devemos conseguir uma cura mais rápida da infeção e minimizar o aparecimento de bactérias resistentes a antibióticos ".
 

Isabel Gordo acrescenta: "Os nossos resultados com E. coli preparam o terreno para futuras experiências noutras espécies bacterianas importantes, tais como Mycobacterium tuberculosis e Salmonella."
 

A resistência bacteriana aos antibióticos tem vindo a aumentar, representando uma séria ameaça para a saúde humana. Compreender a relação entre bactérias, sistema imunitário e antibióticos pode abrir novos caminhos para lidar com este problema de saúde pública.

 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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