Derrame do Prestige com consequências a longo prazo

«Algumas substâncias são potencialmente cancerígenas», afirma Lúcia Guilhermino

25 novembro 2002
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Algumas substâncias presentes em combustíveis como o derramado pelo petroleiro Prestige ao largo da costa espanhola são potencialmente cancerígenas, podendo constituir ameaça para a saúde pública se ingeridas em quantidade suficiente e de forma repetida.
 

 

Em declarações à Agência Lusa, Lúcia Guilhermino, do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMAR) e do Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS), explicou que a mancha de fuel óleo, que por enquanto tem poupado a costa portuguesa, terá "consequências inegáveis na cadeia alimentar".
 

 

"O problema pode ser encarado sob três perspectivas", afirmou a cientista, que desenvolve investigação na área da toxicologia e contaminação de populações marinhas.
 

 

"A nível ecológico, a contaminação por fuel óleo terá certamente efeitos agudos e crónicos em organismos aquáticos, como algas, invertebrados, peixes e aves, podendo provocar alterações consideráveis nos ecossistemas da zona costeira, dos estuários, e em zonas mais profundas", explicou.
 

 

Apesar de mais visíveis em moluscos, crustáceos e aves, os efeitos do combustível atingirão todos os níveis do ecossistema, provocando alterações a curto e longo prazo, continuou.
 

 

"Além dos indícios de contaminação manifestados numa primeira fase, existem outros que se revelam a longo prazo, já que componentes como os hidrocarbonetos são absorvidos pelos seres vivos", explicou, indicando que estes podem ser acumulados em diversos tecidos, como os adiposos.
 

 

"Dessa forma, os químicos são bio-magnificados na cadeia trófica (alimentar), o que aumenta a sua concentração nos organismos em níveis sucessivos da cadeia, representando um risco acrescido para os organismos do topo", continuou.
 

 

Daí que a contaminação por maré negra tenha riscos elevados para o homem, um consumidor de níveis tróficos altos, pois consome animais que podem acumular os agentes químicos contaminantes resultantes de uma maré negra.
 

 

"Alguns hidrocarbonetos têm uma persistência considerável nos organismos vivos e no ambiente. No entanto, só a ingestão continuada e prolongada teria efeitos cancerígenos no homem", sublinhou.
 

 

Contudo, sublinhou a cientista, alguns destes químicos podem ser eliminados pelo organismo, o que torna difícil estabelecer uma relação directa de causa/efeito entre a contaminação por hidrocarbonetos numa situação de mancha negra e o cancro, por exemplo.
 

 

O último aspecto a ter em conta é o impacto económico de uma mancha negra, já que as populações costeiras que vivem da pesca ressentem-se dos danos causados pelos agentes químicos no ecossistema, desde contaminação à morte de espécies.
 

 

As consequências no ambiente de uma mancha negra podem manifestar-se por mais ou menos tempo, dependendo da "densidade e vastidão da mancha, o grau de exposição dos organismos e a sua capacidade de acumularem ou eliminarem as substâncias químicas poluentes", indicou Lúcia Guilhermino.
 

 

No entanto, ressalvou, algumas delas, porque reservadas sob a forma de gordura, acumulam durante anos, podendo voltar a entrar na cadeia alimentar ou acumular com outros poluentes de origem antropogénica ao longo do tempo, o que vai aumentando a contaminação das populações marinhas.
 

 

A maré negra provocada pelo petroleiro Prestige tem poupado a costa portuguesa, uma vez que os ventos continuam a soprar favoravelmente.
 

 

Até ao momento, já foram afectados pela mancha de fuel óleo cerca de 295 quilómetros da costa galega, causando danos que o Governo de Madrid avalia em cerca de 42 milhões de euros.
 

 

O petroleiro Prestige encalhou no dia 13 ao largo da costa da Galiza, com 77 mil toneladas de fuel óleo nos porões.
 

 

Na terça-feira de manhã, o petroleiro partiu-se ao meio e à tarde afundou-se, ficando a 3,5 quilómetros de profundidade.
 

 

Uma equipa do CIMAR liderada por Lúcia Guilhermino, em colaboração com o Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro e com o Instituto de Medicina Legal do Porto tem actualmente em curso um projecto de investigação relacionado com este tipo de contaminação.
 

 

O trabalho inclui a biomonitorização de populações (moluscos, equinodermes, peixes) da zona costeira compreendida entre o Minho e a Ria de Aveiro, e de estuários, como o do rio Minho, Lima, Cávado, Ave, Douro e a Ria de Aveiro, para avaliar a contaminação destas populações e o risco ecológico inerente a acidentes de origem antropogénica, como derrames de combustível.
 

 

Fonte: Lusa

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