Depressão: bom humor pode ser sequestrado por proteínas priónicas mal conformadas

Estudo publicado no “Journal of Biological Chemistry”

21 agosto 2015
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Um novo estudo fornece pistas importantes que podem melhorar o conhecimento atual acerca da patogénese relacionada com a depressão e doenças neurodegenerativas.
 

Desde meados do século passado, quando se colocou pela primeira vez a hipótese de a depressão resultar de desequilíbrios bioquímicos no cérebro – a denominada hipótese das monoaminas – que se tem investigado até que ponto neurotransmissores como a dopamina ou a serotonina (associadas ao prazer/recompensa e felicidade, respetivamente) estão envolvidos na doença. Contudo, esta hipótese não tem conseguido explicar por completo a complexidade da depressão humana.
 

Apesar de a maioria dos esforços de investigação se ter centrado durante muito tempo nas proteínas priónicas com conformação alterada, os atuais esforços preferem focar-se na proteína priónica nativa que não sofreu a alteração na sua conformação. Alguns cientistas acreditam que esta última desempenha uma função semelhante à de uma plataforma para a ligação de componentes celulares.
 

Agora, uma equipa de cientistas do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Brasil, propõe que a proteína do prião possa desempenhar um papel relevante na depressão.
 

As partículas proteináceas infeciosas, também conhecidas como priões, são proteínas em que o complexo processo de conformação molecular tridimensional se processa de forma anormal e que, por uma razão ainda desconhecida, sequestram outras proteínas normais, induzindo-as a alterar o seu processo de conformação. Com o acumular deste tipo de proteínas com má conformação, desenvolvem-se agregados que se espalham pelo cérebro e dão origem a doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson ou de Alzheimer. Entre os sintomas manifestados por pacientes com este tipo de condições encontra-se a deterioração neurológica progressiva e a depressão.
 

Neste novo estudo, os cientistas brasileiros demonstraram que ratinhos sem proteínas priónicas apresentavam níveis aumentados dos recetores que se ligam à serotonina. Além disso, os níveis da enzima que produz a serotonina e da própria serotonina eram mais elevados nos ratinhos desprovidos de proteínas priónicas.
 

A investigação demonstrou ainda que os ratinhos privados de proteínas priónicas apresentavam níveis mais elevados não só das enzimas que produzem dopamina como da própria dopamina. Contudo, estes animais não apresentavam a resposta que seria normal ocorrer quando a dopamina se liga ao respetivo recetor, isto apesar de os níveis do recetor da dopamina se encontrarem normais nestes animais.
 

De acordo com Danielle Beckman, uma das autoras do estudo, “é possível que a falta de interação entre a dopamina e os seus recetores resulte da dessensibilização do recetor precisamente por haver demasiada dopamina.”
 

Outro achado importante que apoia a hipótese de as proteínas priónicas estarem envolvidas na depressão foi a deteção destas exatamente nos mesmos locais das células que os recetores de dopamina e serotonina, tendo os autores observado que a proteína priónica poderia ligar-se ao recetor da dopamina.
 

Os cientistas acreditam que, em casos normais, a proteína priónica funciona como um suporte para as diferentes interações moleculares. Quando as moléculas da proteína priónica são sequestradas por outras proteínas priónicas com conformação alterada deixam de poder funcionar como suporte para as interações moleculares, o que impede os mecanismos invocados pelos químicos cerebrais que são importantes para o humor.
 

Estes achados poderão abrir novos caminhos de investigação que contemplem a proteína priónica como potencial alvo de tratamentos para a depressão e outras condições semelhantes.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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