Depois da pobreza, a sida...

HIV na Rússia pode ser mais grave que em África

13 fevereiro 2002
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A Sida está prestes a arruinar a Rússia com consequências que podem ser mais catastróficas que em África, embora a opinião pública não saiba que a epidemia já chegou ao país.
 

Após décadas de pouco contacto com a doença, a Rússia e a Ucrânia foram «apanhadas» desprevenidas. Dos 180 mil casos oficialmente registrados, 100 mil foram identificados no ano passado. Para os especialistas, actualmente, o número de casos no país pode chegar a um milhão - o que corresponde a mais de um por cento da população adulta.
 

 

"Anualmente, duplica o número de pessoas contaminadas. Se continuar assim por mais dois ou três anos, não teremos um por cento, mas dois, quatro, oito por cento", disse à Reuters Vadim Pokrovsky, chefe do Centro para Sida da Rússia.
 

 

"As pessoas não consideram a doença um problema. Talvez porque, durante muitos anos, tenhamos alertado: “A Sida está a chegar”. Mas ela não chegou", explicou o especialista. "Esperávamos que ocorresse antes. Ela veio mais tarde. Agora a população acha que estamos apenas a fazer barulho".
 

 

A epidemia de Sida na Rússia já é pior que na Europa Ocidental e na América do Norte. Nessas regiões, a doença atingiu grupos de alto risco como utilizadores de droga e homossexuais, mas foi contida antes de se espalhar ao resto da população.
 

 

Epidemina está no início
 

 

Entre os russos, a infecção pelo HIV começou entre os utilizadores de drogas e ainda não se disseminou amplamente por meio de relações heterossexuais, como aconteceu em África.
 

 

Pokrovsky aponta as altas taxas de outras doenças sexualmente transmissíveis como sinais da prática disseminada de sexo de risco. A título de exemplo, os índices de sífilis na Rússia são centenas de vezes superiores aos detectados no ocidente.
 

 

Mesmo que a epidemia seja controlada antes de atingir as taxas de algumas regiões da África, o impacto demográfico e económico pode ser maior. "Em África, os índices de nascimento são elevados, mas, na Rússia, eles são baixos. Se tivermos apenas três por cento de infectados, a população poderá diminuir em seis por cento", disse Pokrovsky.
 

 

O Estado oferece terapia a apenas cinco mil pacientes. Para atender apenas aos casos oficialmente registados, as entidades de saúde terão de cuidar de 100 mil, em 2005. Os custos deverão explodir. Como em África, provavelmente a Rússia terá de negar tratamento à maioria dos pacientes e sentenciá-los à morte.
 

 

Pokrovsky estima que uma campanha educativa custaria 75 milhões de dólares. O especialista, no entanto, não tem conseguido financiamento. Nenhuma figura pública reconheceu que estar infectada pelo HIV, mesmo que o médico já tenha tratado algumas.
 

 

Dados da Onusida
 

 

A Sida matou 20 milhões de pessoas desde que foi descoberta - há 20 anos - e, de acordo com a ONUSIDA, a maior parte dos 40 milhões de infectados existentes morrerá se não tiver acesso a tratamentos. É em África que a prevalência da doença é mais alta, mas é na Rússia que mais cresce.
 

 

Mas é na Europa Oriental e na Ásia Central que a doença apresenta taxas de crescimento mais elevadas, com destaque para o caso russo, onde se estima que 600 a 800 mil pessoas estarão realmente infectadas, apesar de «o total de casos de infecção notificados ascender aos 129
 

mil», de acordo com o relatório.
 

 

Relatório da Onusida (em inglês)
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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