Crianças surdas-mudas da Nicarágua inventam nova linguagem

Nova língua gestual ajuda a explicar evolução das línguas

19 setembro 2004
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Um novo sistema de língua gestual desenvolvido por crianças mudas na Nicarágua pode conter pistas sobre o desenvolvimento das línguas, assinala uma equipa de investigadores na edição da semana passada da revista Science.
 

Quando em 1977 foi criada na Nicarágua a primeira escola para crianças mudas, elas criaram um vocabulário próprio de sinais que, segundo os cientistas, abriu um novo mundo de informação linguística. «Estamos a viver a evolução em acção, mas o que evolui não é um organismo, mas todo um sistema linguístico», afirma a principal autora do artigo, Ann Senghas, do Barnard College, da Universidade de Columbia (Nova Iorque).
 

Segundo a investigadora, a experiência dos mudos nicaraguenses levou-os a conceber a teoria de que embora nasçam com um «esquema» herdado da linguagem, os seus cérebros são capazes de converter um sistema simples de comunicação numa língua num curto lapso de tempo. Durante o estudo, os investigadores compararam a forma como as crianças e os adultos utilizam a Língua Gestual Nicaraguense (LGN) aprendida em etapas diferentes da sua vida.
 

Nesse processo, constataram que enquanto os mais velhos descreviam acções através de gestos e pantomimas, os mais jovens simplificavam os gestos para chegar a palavras básicas, como acontece em todos as línguas. No estudo participaram também cientistas das universidades de Bristol (Reino Unido), Koc (Turquia) e Nijmegen (Holanda), bem como do Instituto Maax Planck de Psicolinguística desta cidade holandesa. A investigação centrou-se numa escola de educação especial básica para surdos-mudos que o governo nicaraguense abriu em 1977 e noutra escola vocacional inaugurada em 1981.
 

Nenhum dos alunos foi ensinado a comunicar por gestos, mas enquanto estavam juntos conseguiram desenvolver um sistema de comunicação que lhes servia tanto dentro como fora da escola. Cada novo aluno contribui para desenvolver esta língua gestual, o que a torna mais complexa e versátil, ao mesmo tempo que a utilizam com maior velocidade e fluidez. Na actualidade há cerca de 800 surdos-mudos nicaraguenses que utilizam esta língua, variando as suas idades entre quatro e 45 anos, refere o estudo.
 

Fonte: Lusa
 

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