Crianças até dois anos vêem o mundo com erros de escala

Falha entre a percepção e a acção no cérebro é a explicação

20 maio 2004
  |  Partilhar:

 Porque é que as crianças até aos dois anos e meio tentam fazer acções impossíveis com objectos de pequena dimensão? Um grupo de psicólogos das universidades norte-americanas de Virginia, Northwestern e Illinois, desenvolveu um estudo para tentar perceber as razões desse tipo de comportamentos. A imaturidade na interacção de duas áreas do cérebro está na origem desse comportamento, dizem os investigadores na última edição da revista «Science». A equipa estudou comportamentos como a tentativa de entrar num pequeno carro de brincar ou de se sentar numa cadeira de bonecas, reveladas por crianças entre os 18 e os 30 meses. Os erros de escala comuns nas crianças dessa idade resultam de uma falha na ligação entre duas áreas do cérebro, concluem os cientistas. Uma das áreas imaturas do cérebro é responsável pelo reconhecimento visual dos objectos, e pelo planeamento das acções a desenvolver com eles. A outra área está relacionada com a percepção do tamanho dos objectos, e com o controlo dos movimentos necessários para executar as acções. Quando as crianças tentam fazer coisas impossíveis, há uma falta de coordenação entre a percepção e a acção. O estudo partiu de uma experiência com 54 crianças, dos 18 aos 30 meses de idade. Cada bebé foi observado numa sala onde se encontravam vários brinquedos. Três desses objectos (um escorrega, uma cadeira de bebé e um carro, que podiam conduzir) tinham dimensões adaptadas ao seu tamanho. Numa fase seguinte, as crianças foram levadas para fora da sala, enquanto os três objectos foram substituídos por réplicas, em miniatura. No regresso à sala, os bebés foram incentivados a interagir com as réplicas, no caso de não o fazerem de forma natural. A experiência foi gravada e, na análise das imagens, os psicólogos distinguiram os erros de escala dos comportamentos em que as crianças apenas fingiam brincar com os objectos em miniatura. Os investigadores concluíram que 25 das 54 crianças tentaram utilizar, com alguma persistência, os objectos em miniatura, como se fossem adaptados ao seu tamanho. Dos 40 erros de escala revelados, 14 ocorreram de uma forma espontânea, sem que fosse necessário chamar a atenção das crianças para a presença dos brinquedos em miniatura. A incidência dos erros de escala foi maior nos bebés com cerca de dois anos de idade. Os investigadores concluíram que, quando uma criança dos 18 aos 30 meses vê uma cadeira, é activada no seu cérebro a representação mental de uma cadeira típica, de dimensões médias. Essa representação activa a rotina motora, que leva o bebé a interagir com o objecto. Se a criança estiver em contacto com uma cadeira em miniatura, normalmente, há uma inibição da rotina motora, por estar associada a um objecto de maior dimensão. Neste caso, a criança não comete erros de escala. A causa está na falta de coordenação entre dois sistemas do cérebro. Os erros de escala ocorrem quando a informação sobre a identidade de um objecto, processada pelo sistema ventral, não está integrada com a informação sobre o seu tamanho, processada pelo sistema dorsal. Fonte: Público

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar