Como o frio e as bactérias combatem a obesidade?

Estudo publicado na revista “Cell”

10 dezembro 2015
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Investigadores suíços já tinham descoberto que a ausência da flora intestinal podia aumentar a ativação do tecido adiposo castanho de forma a limitar a obesidade. No estudo agora publicado na revista “Cell” os investigadores demonstraram que a exposição de ratinhos ao frio intenso altera a flora intestinal, tornando-os mais magros e mais sensíveis à insulina.   
 
A temperatura corporal dos mamíferos é habitualmente constante. Contudo, quando são expostos ao frio, a temperatura desce poucos graus, antes de subir pouco a pouco até à temperatura normal. Este mecanismo adaptativo é mediado pelo tecido adiposo castanho, que quando ativado pelo frio produz calor queimando calorias. Desta forma, o frio, assim como o exercício, favorece o aparecimento de células adiposas semelhantes ao tecido adiposo castanho (o tecido adiposo bege) dentro do tecido adiposo branco, que protege o corpo contra o excesso de peso e as suas consequências negativas.
 
Com o intuito de averiguar qual a relação deste fenómeno com a composição da flora intestinal, os investigadores da Universidade de Genebra, na Suíça, expuseram um grupo de ratinhos a temperaturas baixas, diminuindo gradualmente a temperatura do meio ambiente dos 20°C para os 6°C. A flora intestinal destes ratinhos foi também transplantada para animais sem microrganismos.
 
Os investigadores verificaram que as alterações observadas na composição da flora intestinal nos ratinhos expostos a temperaturas baixas foram ainda mais dramáticas do que as diferenças da flora intestinal entre indivíduos obesos e saudáveis. Verificou-se também que os ratinhos transplantados ficaram imediatamente resistentes ao frio. A temperatura corporal destes animais não desceu, o que sugere que a flora transplantada também modificou este mecanismo adaptativo.
 
“Este efeito surpreendente sugere que a flora intestinal pode, por si só, conferir resistência ao frio. Adicionalmente, os ratinhos transplantados apresentaram, em geral, um melhor perfil metabólico, com uma grande sensibilidade à insulina e uma maior quantidade de tecido adiposo bege”, revelaram, em comunicado de imprensa, os autores do estudo.
 
O estudo apurou ainda que as alterações que ocorreram na composição da flora intestinal dos ratinhos submetidos ao frio promoveram o aumento do intestino e do comprimento das microvilosidades. As microvilosidades são pequenas projeções que sobressaem da parede do intestino para ampliar a superfície de absorção aumentando, consequentemente, a absorção dos alimentos consumidos. Isto demonstra que a flora tem também a capacidade de regular a morfologia do intestino.
 
Os investigadores constataram que as alterações que ocorreram na flora intestinal resultantes da exposição ao frio foram resultantes da redução drástica de uma bactéria conhecida por Akkermansia muciniphila. Contudo, quando esta bactéria foi artificialmente administrada, o intestino diminuiu para o seu tamanho normal. Isto demonstra que esta bactéria é um elemento importante no mecanismo adaptativo.
 
A flora intestinal dos indivíduos obesos não têm esta bactéria, que tem a capacidade de regular a absorção dos nutrientes. No futuro os investigadores vão estudar mais pormenorizadamente o efeito da Akkermansia muciniphila e da sua utilização como estratégia contra a obesidade, o que poderá conduzir a formas completamente novas de tratar esta doença metabólica.
 
"O intestino é também o nosso maior tecido endócrino, que secreta muitas hormonas que atuam em diferentes partes do organismo. Deste modo, a alteração da morfologia do intestino pode ser uma forma através da qual a flora tem impacto nos outros órgãos, incluindo o cérebro", conclui um dos autores do estudo, Mirko Trajkovski.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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