Cocaína conduz à autodestruição das células cerebrais

Estudo publicado nos “Proceedings of the National Academy of Science”

21 janeiro 2016
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Investigadores americanos comprovaram que o consumo de doses elevadas de cocaína mata as células cerebrais ao desencadear um processo no qual as células se autodigerem, a autofagia hiperativa. O estudo publicado nos “Proceedings of the National Academy of Science” pode conduzir a um possível antídoto denominado por CGP3466B.
 

Após se ter descoberto que as células cerebrais utilizavam o gás óxido nítrico para comunicar, os investigadores da Universidade de Johns Hopkins, nos EUA, passaram décadas a estudar o seu impacto. Em 2013, os investigadores descobriram que o óxido nítrico estava envolvido na morte celular induzida pela cocaína através de interações com uma enzima, a GAPDH. Contudo, ainda não sabiam ao certo como as células morriam.
 

Neste estudo, os investigadores, liderados por Solomon Snyder, analisaram as células nervosas do cérebro de ratinhos para tentar encontrar algumas respostas. As células, tal como os animais no seu todo, podem morrer devido a temperaturas extremas, toxinas, traumas físicos, mas também podem cometer suicídio de três formas que estão quimicamente programadas e controladas por diferentes proteínas.
 

Um deste processo é a autofagia, um processo de limpeza celular muito necessário que descarta as células de “lixo” celular (debris) que se acumula em vesículas membranares dentro da célula. Estas vesículas fundem-se com outras, lisossomas ricos em enzimas, que contêm ácidos que degradam o conteúdo das vesículas. Quando este processo fica acelerado e sai fora do controlo causa morte celular.
 

"A célula é como uma casa que está constantemente a produzir lixo. A autofagia é a empregada que deita fora o lixo, o que habitualmente é uma coisa boa. Contudo, a cocaína faz com que sejam colocados no lixo conteúdos realmente importantes, como as mitocôndrias, que produzem energia para a célula”, explicou, em comunicado de imprensa, um outro autor do estudo, Prasun Guha.
 

Através da medição das alterações nos níveis de proteínas que controlam cada programa de morte celular e através das alterações físicas das células, os investigadores demonstraram claramente que a cocaína causa morte neuronal celular através da autofagia fora do controlo. Estes resultados confirmam aqueles já apurados por dois grupos de investigação distintos que observaram a ocorrência da autofagia induzida pela cocaína nos astrócitos e microglia, células de suporte dos neurónios.
 

Uma vez que os investigadores já sabiam que o óxido nítrico e a GAPDH estavam envolvidos neste processo, testaram a capacidade do composto CGP3466B, conhecido por afetar as interações entre o óxido nítrico/ GAPDH, impedir a autofagia induzida pela cocaína. Apesar de terem testado outros compostos, verificou-se que apenas o CGP3466B era capaz de proteger as células cerebrais.
 

Estudos anteriores levados a cabo pelos mesmos investigadores, já tinham demonstrado que o CGP3466B era capaz de resgatar as células cerebrais de ratinhos vivos dos efeitos mortais da cocaína. Contudo, ainda não tinham associado este fenómeno à autofagia.
 

Neste estudo após terem administrado uma dose única de cocaína aos ratinhos e terem analisado sinais de autofagia, os investigadores detetaram proteínas associadas à autofagia e a alterações nas vesículas de adultos e nas crias de ratinhos cujas mães tinham recebido cocaína durante a gravidez.
 

Os autores do estudo esperam que estes resultados conduzam eventualmente a tratamentos capazes de proteger os adultos e as crianças dos efeitos devastadores que a cocaína tem no cérebro.

 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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