Clonagem e o significado da sequenciação do nosso genoma

Veja o que pensa o Dr. Jorge Guimarães sobre este assunto controverso

26 novembro 2001
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Genoma humano é a designação que se atribui ao conjunto de material genético contido em células humanas e que permite o desenvolvimento, sobrevivência e funcionamento do organismo.
 

 

Como é do conhecimento comum, a informação é armazenada e transmitida em seres humanos, e na generalidade dos seres vivos, sob a forma de ADN, ou ácido desoxirribonucleico - um ácido composto por um tipo de açucar (desoxirribose), fosfato e adenina (A), timina (T), citosina (C) e guanina (G).
 

 

Estes 4 últimos elementos (A, T, C e G) são as unidades de informação do ADN pois é a sequência destes componentes que contém a informação a ser descodificada pela maquinaria da célula.
 

Para além deste tipo de informação sequencial, o genoma humano contém ainda informação estrutural que resulta do posicionamento tridimensional de porções da molécula de ADN, a qual determina o tipo de interacções que o ADN tem com outras moléculas na célula.
 

 

A descoberta da sequência de ADN da espécie humana permitirá, no futuro, diagnosticar erros no ADN e corrigi-los por forma a evitar o desenvolvimento de doenças.
 

 

Para além da sequenciação do ADN humano, há ainda outros elementos que é preciso decifrar para que se obtenha o completo benefício do esforço de sequenciação. Nomeadamente, é preciso conhecer a posição relativa de cada gene, ou seja, é preciso mapear o genoma. Isto vai dar algum trabalho porque das cerca de 3 biliões de bases A, T, C e G, apenas uma pequena percentagem (inferior a 10%) codifica um gene, o resto tem função desconhecida. Todavia, é possível que grande parte do genoma não seja lixo biológico mas que tenha outras funções ainda por descobrir, nomeadamente, de armazenamente de informação estrutural.
 

 

Além disto, um grande número de genes ainda tem função desconhecida, de modo que continuamos sem saber para que precisamos de algumas das nossas peças...
 

 

Outro aspecto a referir é que a sequenciação do genoma humano foi obtida a partir de um grupo restrito de indivíduos da espécie humana. É preciso saber agora onde se aceitam variações normais ao código obtido porque todos nós temos pequenas diferenças no nosso ADN que são perfeitamente normais, já que além das regiões não codificadoras de genes há alguma redundância no código genético.
 

 

Tendo convivido com alguns dos responsáveis pelo projecto de sequenciação do genoma humano, sei que ainda não se sabe o que fazer com esta informação, como não se sabia quando se iniciou o projecto.
 

 

Muitas vezes, começamos por fazer coisas sem que saibamos da utilidade possível para o que obtivermos no final. Muitas histórias de prémios Nobel e de outras grandes descobertas têm esse denominador comum- resultados e achados que não pareciam servir para nada mas que eram muito interessantes entusiasmaram cientistas a desenvolvê-los e outros a descobrirem-lhe aproveitamentos.
 

A terapêutica genética começa agora a dar os seus primeiros passos e, com ela, antevê-se um crescimento explosivo nas técnicas de diagnóstico, o que permitirá tirar partido da sequenciação do genoma.
 

 

Isto de sequenciar o genoma era inevitável porque a tecnologia existia. No dia em que existir, de verdade, a tecnologia de terapêutica genética (ainda muito precária), será o princípio de outra revolução na medicina, comparável apenas à da descoberta dos antibióticos e dos transplantes. Nesse dia, poderemos, talvez, viver mais e melhor se soubermos utilizar a informação e as técnicas para corrigir a natureza sem a querer melhorar. Aí é que estará o perigo porque procurar melhorar a natureza tem um preço imprevisível.
 

 

 

Doutor M. Jorge Guimarães
 

MNI – Médicos Na Internet

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