Clima vai mudar em Portugal nos próximos 100 anos

Livro traça cenário «negro» sobre as mudanças climáticas

24 junho 2002
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Investigação sobre mudanças climáticas em Portugal, compilada em livro apresentado hoje em Lisboa, traça um cenário futuro de impactos negativos que vão desde o aumento da temperatura à diminuição da precipitação.
 

 

Segundo o coordenador da investigação e do livro "Climate Change in Portugal: Scenarios, Impacts and Adaptation Mesures", Filipe Duarte Santos, até ao final do século os impactos mais negativos das alterações climáticas serão registados na Europa do Sul.
 

 

No caso de Portugal, esses impactos irão traduzir-se numa redução da precipitação (cerca de 100 milímetros até ao final do século), num aumento da temperatura (entre 3 a 4 graus), num acréscimo no risco de incêndios florestais, na agricultura, que ficará mais dependente da irrigação, numa maior pressão sobre os recursos hídricos, já que haverá mais procura e menos oferta, e num aumento do nível médio do mar (aproximadamente 50 centímetros).
 

 

Estas alterações podem traduzir-se num aumento da frequência de fenómenos climáticos extremos, como longos períodos de seca ou inundações, sugerem os resultados publicados no livro apresentado na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
 

 

Outras consequências negativas para o país serão problemas ligados à qualidade e gestão da água, modificação no regime de temporais e agitação marítima e aumento da erosão costeira, indicou Duarte Santos.
 

 

Impacto na saúde
 

As mudanças climáticas terão também impacto na saúde humana, podendo registar-se um aumento da mortalidade associada a ondas de calor, doenças transmitidas pela água e alimentos e outras veiculadas por roedores.
 

 

"Este estudo é um passo importante no conhecimento dos cenários que podem ocorrer em Portugal em consequência das alterações climáticas", considerou o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
 

 

Para minimizar estes cenários, o coordenador do SIAM I (Scenarios, Impacts and Adaptation Mesures) acredita que é, por exemplo, necessário diversificar as fontes de energia, adoptar políticas que obriguem à diminuição das emissões dos gases catalisadores do efeito de estufa, de que é exemplo o Protocolo de Quioto, e dialogar com todos os agentes implicados.
 

 

O objectivo do projecto SIAM (1999/2001) foi, com base em futuros cenários climáticos para a Península Ibérica, e especialmente para Portugal, proceder ao estudo do impacto das alterações climáticas nos vários sectores socio-económicos (recursos hídricos e piscatórios, zonas costeiras, agricultura, florestas, energia e saúde humana).
 

Medidas urgentes
 

 

Reflectindo o trabalho de 51 investigadores, os onze capítulos do livro pretendem também lançar as bases para o SIAM II, que focará a sua atenção no diálogo e estabelecimento de medidas de adaptação em conjunto com os vários agentes (empresariais, políticos e sociais) envolvidos ou que poderão ser atingidos pelas mudanças climáticas.
 

 

O SIAM II vai também estudar os locais onde se prevêem cenários mais adversos (bacia hidrográfica do Sado, a do Guadiana e os Açores).
 

 

Um exemplo da vertente mais prática do novo estudo realiza-se a 11 de Julho, em Peniche, onde se irá estabelecer um diálogo com base no SIAM I entre os vários agentes para delinear medidas de adaptação e minimização dos impactos das alterações climáticas.
 

 

"Quanto mais tarde iniciarmos o processo de mitigação das emissões poluentes e catalisadoras do efeito de estufa, maiores serão os custos económicos", disse Filipe Duarte Santos.
 

 

O SIAM I contou, entre outros, com o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e da Fundação Calouste Gulbenkian. O SIAM II, que começou no início deste ano e se prolongará até 2003, é apoiado pelo Ministério das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente.
 

 

Presente na apresentação do livro, o presidente da República Jorge Sampaio elogiou os resultados do SIAM I, considerando as alterações climáticas um dos problemas mais gravosos e de maior complexidade actuais.
 

 

Proteger, através da redução das emissões, e minorar os efeitos das mudanças climáticas são desafios comuns para os próximos cem anos, disse Sampaio, acrescentando que a impopularidade das medidas a tomar se deve ao facto dos seus efeitos só serem passíveis de observação a muito longo prazo.
 

 

"Aquilo que agora se fizer ou não se fizer só terá consequências daqui a muito tempo", continuou, salientando a esse propósito a importância do Protocolo de Quioto, que Portugal e os Quinze já ratificaram, e que prevê uma redução na emissão de gases catalisadores do efeito de estufa.
 

 

Lamentando o facto da co-incinerarão não ter merecido o mesmo estudo que as mudanças climáticas, impedindo "últimas palavras sobre o assunto", o presidente referiu ainda a importância que um sólido Laboratório de Estado sobre o Ambiente teria.
 

 

Para Pedro Lynce, ministro da Ciência e do Ensino Superior, é necessário um desenvolvimento sustentado do país, tornando os recursos eficientes face às mudanças, área em que este estudo representa uma contribuição determinante.
 

 

Falando do financiamento para a Ciência e a Tecnologia, que gostaria de fazer chegar a um por cento do Produto Interno Bruto (PIB), o ministro sublinhou que durante o seu mandato a tónica será dada à solidariedade.
 

 

O objectivo, disse, é apostar num desenvolvimento mais harmonioso entre a ciência que se faz no interior e no litoral do país.
 

 

Fonte: Lusa
 

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