Circuitos electrónicos ganham vida

Recém chegados da ficção científica, os novos neurocircuitos chegam prontos para revolucionar as práticas terapêuticas no tecido nervoso

29 agosto 2001
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Já ouviu falar em neuroelectrónica? Pois então fique a saber que se trata de uma nova tecnologia que combina células nervosas com microchips. A neuroelectrónica poderá ser a base para o desenvolvimento de implantes neuroterapêuticos para a substituição de tecido nervoso danificado, de computadores tão avançados que poderão mimetizar sistemas vivos, ou até de neurocircuitos inteligentes.
 

 

“É um toque de ficção científica!” Esta é afirmação feita pelos cientistas que montaram o primeiro neurocircuito, Peter Fromherz e Gunther Zeck do Instituto de Bioquímica “Max Plank” em Munique (Alemanha).
 

 

O novo circuito foi desenvolvido a partir de uma placa de sílica onde foram colocadas, com pinças microscópicas, células em locais bem definidos. À medida que foram crescendo, as células desenvolveram conexões entre elas próprias e com a placa de sílica. Além de outros componentes, entre cada célula existe um estimulador eléctrico que cria diferenças de potencial que geram, por sua vez, impulsos eléctricos que são transmitidos célula a célula. Pode-se, desta forma, dizer que o circuito se “torna vivo”.
 

 

Eve Marder, que se dedica ao estudo de redes neurais na Universidade de Waltham, Massachusetts (EUA), afirma que o desenvolvimento de circuitos electrónicos com células vivas “... é perspicaz...” Ela afirma que a criação dos circuitos neuroelectrónicos “abrirá um leque de possibilidades diversificadas para a investigação cuidada e minuciosa do sistema nervoso, como por exemplo o estudo do processo que conduz à formação das memórias.”
 

 

Segundo E. Marder, o principal obstáculo que se coloca à neuroelectrónica é a dificuldade de garantir que as ligações que se estabelecem entre os componentes electrónicos e as células vivas são seguras, estáveis e, portanto, fiáveis. E, realmente, um dos problemas encontrados por P. Fromherz e G. Zeck foi o facto das células se movimentarem quando as conexões se desenvolvem.
 

 

Ao limitar espacialmente esse crescimento, estes investigadores crêem ter ultrapassado este problema. Como em todos os circuitos integrados, o uso da placa de sílica possibilita a padronização deste novo tipo de circuitos.
 

 

As potenciais aplicações dos neurocircuitos são ambiciosas e vão desde o desenvolvimento de biossensores para testes de substâncias farmacológicas em tecido nervoso até à neuroterapia. Por exemplo, estes neurocircuitos poderão ser utilizados na reparação de zonas danificadas da medula espinal inacessíveis às técnicas terapêuticas actuais.
 

 

P. Fromherz considera que a implementação (prática) deste tipo de projectos ainda pertence à esfera da ficção científica, assim como a implementação de “neurocomputadores” com neurónios vivos ou até mesmo cérebros. Para já o estudo das redes neurais ajudará os cientistas a compreender e a mimetizar as propriedades e o funcionamento do cérebro humano.
 

 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet
 

 

Fonte: Nature
 

 

Nota: um microchip é um circuito electrónico que integra na mesma placa de sílica um grande número de componentes electrónicos.

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