Cientistas testam terapia radiológica mais potente e inofensiva

Lenda do Cavalo de Tróia aplicada à investigação

16 novembro 2001
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A lenda do cavalo de Tróia é a explicação mais clara para da ilucidar as descobertas na área de tratamento oncológico feitas pela equipa do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova Iorque. Tal como a estratégia militar que, segundo o poeta grego Homero, levou à ruína a cidade de Tróia, os cientistas descobriram um método semelhante destinado ao combate ao cancro.
 

 

A terapia radiológica é uma das mais usadas no tratamento do cancro, com as desvantagens conhecidas de ser agressiva pois não «mata» apenas as células cancerosas, como também destruí as saudáveis. Agora, os investigadores descobriram uma alternativa, que vem hoje publicada na revista Science.
 

 

Trata-se de um nanogerador- uma espécie de gerador atómico molecular que actua ao nível celular e pode destruir os tumores através da emissão de ínfimas, mas muito potentes, partículas radioactivas – que actua como cavalo de Tróia no interior das células cancerosas, eliminando-as com eficácia e sem produzir, aparentemente, quaisquer efeitos tóxicos colaterais.
 

 

O sistema foi testado em culturas de células humanas e em ratinhos doentes e funcionou. Para tal, a equipa encaixou um anticorpo, proteína produzida pelo corpo para combater corpos estranhos (e normalmente indesejados) no seu interior, a um átomo bem pesado. A fase posterior foi a de injectar «bocados» desses conjuntos no organismo.
 

 

Os anticorpos foram criteriosamente escolhidos. Cada um deles era capaz de localizar e invadir um determinado tipo de célula cancerosa. O átomo também foi bem seleccionado.
 

 

Nanogerador: como funciona?
 

 

Em termos mais específicos, o nanogerador usado consiste num átomo radioactivo de actínio-225 ligado a um anticorpo específico que o conduz apenas, uma vez injectado no organismo, a células cancerosas. No interior da célula, a decomposição, ou decaimento, do actínio produz partículas alfa de alta energia que destroem essa célula doente. Além disso, o efeito é potenciado pelo facto de o decaimento do actínio ter como resultado a produção de uma série de três átomos secundários, também estes capazes de emitirem radiação alfa.
 

 

Nas experiências efectuadas, os cientistas utilizaram diversos anticorpos como «motores» do átomo de actínio, o que lhes permitiu, em laboratório, destruir diversos tipos de células cancerosas humanas (ver resultados). O processo utilizou apenas pequenas doses desses geradores, isto é, um trilionésimo da unidade básica do decaimento radioactivo (o actínio, note-se, tem uma semi-vida de dez dias).
 

 

Resultados
 

 

Os primeiros testes foram feitos in vitro, com culturas de células de vários tipos de cancro humano, como leucemia, linfoma, cancro da mama, ovários, cérebro e próstata. Os tecidos cancerosos foram todos destruídos. Mas restava saber se a estratégia não mataria também o paciente durante o processo. Por isso, numa segunda etapa, os cientistas resolveram testar o efeito em ratinhos vivos, induzidos a desenvolver equivalentes ao cancro da próstata e linfoma.
 

 

A injecção de anticorpos modificados provocou uma regressão nos tumores e prolongou a vida dos animais submetidos ao tratamento. Os ratinhos com tumor similar ao da próstata, por exemplo, sobreviveram em média 33 dias sem tratamento. Com as injecções - em doses maiores, mas não tóxicas - as cobaias sobreviveram por pelo menos dez meses e não apresentavam sinais do tumor no momento da morte.
 

 

Há cerca de 20 anos que os investigadores estudam o conceito de usar proteínas na destruição de tumores. Agora, esperam pelo momento em que irão iniciar os testes em seres humanos. A FDA (agência que regula medicamentos e alimentos nos EUA) deve aprovar a experiência no próximo ano.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI - Médicos Na Internet
 

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