Cientistas produzem ovócitos e embriões sem fecundação

É a primeira demonstração in vitro do carácter totipotente das células estaminais

02 maio 2003
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Investigadores norte-americanos e franceses conseguiram produzir ovócitos (células sexuais femininas) a partir de células estaminais embrionárias, o que permitiu criar embriões em laboratório sem recorrer à fertilização, segundo a edição desta semana da revista Science.
 

 

Os resultados estão a gerar grande expectativa junto da comunidade científica, uma vez que poderão representar uma forma de contornar as objecções éticas levantadas perante a utilização de embriões para investigação.
 

 

Para os investigadores, os trabalhos têm importantes considerações éticas, uma vez que os ovócitos obtidos in vitro podem produzir células estaminais embrionárias, cuja cultura não pode, afirmam, ser considerada como um atentado à vida, como se verifica com a recolha de células estaminais de um embrião natural.
 

 

Perante a questão, Paula Martinho da Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), explicou hoje à Agência Lusa que o argumento apresentado não é novo.
 

 

"Não se tratando de reprodução sexuada, com o objectivo de produzir um ser humano, há quem entenda que não se poderá chamar um embrião, resultado da fusão de dois gâmetas", o que neste caso não ocorreu, disse.
 

 

No entanto, ressalvou, esta é apenas uma interpretação possível, uma vez que a aplicação do direito ao embrião depende da forma como o definimos juridicamente e de quando e em que ocasiões o passamos a designar de embrião.
 

 

O artigo publicado na Science vem acompanhado da opinião de três teólogos norte-americanos que consideraram que a utilização destes ovócitos, desenvolvidos até à fase de embrião (blastocisto), não representa um problema ético substancial.
 

 

Trata-se da primeira demonstração in vitro do carácter totipotente das células estaminais (percursoras), isto é, da sua capacidade de produzir em laboratório todos os tipos de células, nomeadamente as reprodutivas, segundo os autores, que trabalharam com ratinhos.
 

 

Até agora, as células estaminais cultivadas in vitro eram consideradas pluripotentes, isto é, capazes de produzir todo o tipo de células excepto aquelas que constituem os ovócitos e os espermatozóides.
 

 

"A maioria dos investigadores pensava que era impossível produzir gâmetas (células sexuais) a partir de células estaminais fora do organismo", explicou Hans Schoeler, da escola veterinária da Universidade da Pennsylvania, que conduziu a investigação.
 

 

Schoeler sublinhou que a obtenção de ovócitos in vitro poderá representar um novo método de produção de células estaminais embrionárias que contornaria os problemas éticos ligados à recolha destas células estaminais em embriões.
 

 

A implantação do núcleo de uma qualquer célula de um doente num destes ovócitos poderia então permitir a produção de células estaminais embrionárias totipotentes, abrindo o caminho a tratamentos celulares à medida, segundo o investigador.
 

 

Os cientistas chegaram aos mesmos resultados com células estaminais masculinas e femininas, e isso sem ter recorrido a hormonas de crescimento ou a qualquer procedimento particular.
 

 

Os investigadores querem agora determinar se os ovócitos produzidos in vitro podem ser fecundados.
 

 

"Poderíamos utilizar estes ovócitos como uma base para a clonagem terapêutica, por isso esperamos que resultados idênticos possam ser obtidos com células estaminais embrionárias humanas", declarou.
 

 

Fonte: Lusa

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