Cientistas criam rato «estúpido»

Proteína é responsável por falhas na aprendizagem

09 julho 2003
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Há menos de um ano, cientistas norte-americanos criaram um rato, geneticamente modificado, com a cabeça muito maior do que o normal. Agora, outra equipa composta por cientistas dos EUA e Canadá produziram um roedor estúpido.
 

 

Apesar das aparências, não se trata de um esforço para criar uma versão literal do famoso cão da banda-desenhada do Lucky Luke, Ran-tan-plan. Na verdade, o novo estudo, a ser publicado numa das próximas edições da revista americana «PNAS» (www.pnas.org), alimenta a polémica hipótese de que os pedaços do DNA que não codificam genes, apelidados pelos geneticistas de DNA-lixo («junk-DNA»), podem ter relação directa com o desenvolvimento da aprendizagem e da memória.
 

 

Os cientistas «desligaram» um gene em ratinhos com a especificação de uma proteína chamada MBD1. Esta proteína faz parte de uma família de substâncias cuja função é juntar-se a uma molécula num gene, bloqueando a sua leitura. Em testes anteriores, os investigadores já haviam desactivado a fabricação de outras proteínas desse tipo, como MBD2, MDB3, MBD4 e MeCP2.
 

 

Os resultados nunca foram bons para o ratinho. Sem a MeCP2, tanto os roedores quanto humanos sofrem um déficit neurológico (doença conhecida como síndroma de Rett). Sem a MDB2, por seu lado, os ratinhos têm déficit de comportamento maternal. Caso não possuam a MDB3, morrem no estado embrionário. E sem a MDB4, têm falhas no sistema de reparação do DNA e desenvolvem tumores.
 

 

Por isto, qual não foi a surpresa dos investigadores do Instituto Salk para Estudos Biológicos, em La Jolla, Califórnia (EUA), quando os animais sem MDB1 nasceram aparentemente normais. Mas a surpresa veio logo a seguir. «Eles vivem normalmente», afirma Alysson Renato Muotri, investigador brasileiro do Salk e co-autor do estudo. «Mas parecem ser mais estúpidos.»
 

 

A avaliação dos animais mostrou que eles tinham um déficit de aprendizagem, bem como de memorização, além de possuir uma menor densidade neuronal no hipocampo, região do cérebro associada a memória.
 

 

Perceber a estupidez em humanos é muito mais fácil do que em ratinhos, mas os cientistas garantem ser possível fazê-lo também com os roedores. Alguns testes demonstram as habilidades «intelectuais» dos animais.
 

 

«Num dos testes, colocamos o bicho numa piscina no meio da escuridão», diz Muotri. «Ele não gosta de estar na água e quer fugir dali, mas só pode fazê-lo por meio de uma plataforma. Um animal normal procura a plataforma e, numa segunda tentativa, já vai directo para o sítio. Mas, o rato sem a MBD1 não aprende, não consegue lembrar-se onde estava a plataforma.»
 

 

A acção exacta da MBD1 que causa essas mudanças ainda não está clara, mas os cientistas têm uma sugestão polémica. Para eles, a MBD1 é a proteína que bloqueia um estranho efeito do DNA-lixo, o qual influi que algumas sequências saltem de uma parte para a outra do genoma — um mecanismo que os cientistas chamam de retrotransposons.
 

 

Em termos práticos, a MDB1 funciona como o líder sindical que convence os «trabalhadores» do DNA-lixo - responsáveis pelo transporte de pedaços supostamente «inúteis» do DNA - a fazer greve. Sem a MDB1, os trabalhadores continuam a laborar. Foi o que observaram os cientistas durante os estudos com chips de DNA. Os retrotransposons «saltaram» durante todo o tempo. E, por alguma razão, ainda misteriosa, essa confusão do DNA-lixo prejudica as funções de memorização, aprendizagem e fabricação de neurónios.
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

 

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