Cientista português cria forma de «humanizar» problemas das redes
19 abril 2002
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Um investigador português desenvolveu e patenteou tecnologia que vai permitir, através do uso de metáforas, tornar mais "humanos" os problemas de rede que habitualmente irritam os utilizadores experimentados.
 

 

Partindo da premissa de que as redes (sejam elas Internet, wireless ou privadas) não são cem por cento fiáveis, Manuel Oliveira, 29 anos, criou um sistema que traz os utilizadores para dentro das limitações da rede, tirando partido do comportamento do ser humano.
 

 

"Quando surgiu o telefone, as pessoas não tinham noção do processo técnico de comunicação", explicou à Agência Lusa Manuel Oliveira, licenciado em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico (IST).
 

 

Ora, segundo o jovem investigador, que desenvolve actualmente o seu trabalho no University College of London (UCL), hoje as coisas já não se passam assim e os utilizadores têm uma maior percepção do que é uma rede, estando também mais receptivos a compreenderem os seus problemas, desde que estes lhes sejam explicados.
 

 

A tecnologia patenteada por Manuel Oliveira no Reino Unido (e brevemente em Portugal e nos Estados Unidos) destina-se precisamente a "humanizar" as falhas técnicas da rede, servindo-se para isso de metáforas, que associem determinado problema a uma concepção imediatamente familiar ao ser humano.
 

 

Exemplificando, numa situação em que duas pessoas estão a jogar on line e uma delas está com problemas de rede, Manuel Oliveira propõe soluções como tornar o símbolo do jogador (tecnicamente designado por Avatar) com dificuldades cada vez mais transparente antes de a comunicação ser definitivamente interrompida.
 

 

"A transparência do Avatar é apenas um exemplo possível de uma metáfora. A sua intensidade reflectiria directamente o estado actual da rede", sublinhou Manuel Oliveira.
 

 

O investigador realizou um estudo entre comunidades de jogadores on-line, confrontando-os com várias opções para os informar da existência de problemas na rede: nenhuma acção, caixa de diálogo, ícone a piscar num dos cantos ou um exemplo de metáfora.
 

 

"Inicialmente a maioria seleccionou o ícone ou a metáfora.
 

 

Depois de lhes ser explicado, todos preferiram a metáfora", explicou.
 

 

Uma outra aplicação da tecnologia é, numa vídeo-conferência, substituir um interlocutor soluçante, devido a dificuldades de transmissão, por um som que os ouvintes associem imediatamente a problemas sem ser demasiado incomodativo, como o ruído de um comboio.
 

 

Assumidamente simples, a ideia faz parte do leque de inovações que são como o ovo de Colombo: totalmente óbvias até alguém as propor pela primeira vez.
 

 

Embora noutra escala, se esta tecnologia se implementar no mercado poderá significar, para o mundo das redes, uma revolução tão significativa como a que os sistemas operativos introduziram na relação entre os utilizadores e os computadores, tornando-a mais simples e amigável.
 

 

Quais as metáforas a aplicar em cada caso está ainda a ser estudado, já que uma imagem pode ter significado na Europa e nada dizer a um chinês ou a um norte-americano.
 

 

A patente de Manuel Oliveira, registada em Março com a denominação "Perceptual Network Metaphors" (em português, algo como Metáforas de Percepção de Redes), serve para qualquer aplicação que envolva interacção em tempo real entre aplicações e utilizadores ligados através de uma rede.
 

 

A indústria de telemóveis pode, portanto, ser outro potencial cliente-alvo desta tecnologia, sobretudo quando forem generalizados protocolos como o GPRS (General Packet Radio Service) ou UMTS (Universal Mobile Telecommunications Systems).
 

 

Neste caso, por exemplo, em vez de um download de um videoclip ser abruptamente interrompido, o utilizador pode ser avisado através de uma metáfora (uma música, um ruído) do que vai acontecer, podendo eventualmente precaver-se.
 

 

Manuel Oliveira conta desenvolver em breve contactos com empresas como a Vodafone, a Sony (departamento de jogos) e a Microsoft de forma a rentabilizar esta patente.
 

 

"A ideia é aproveitar modelos cognitivos do homem e regras socialmente estabelecidas para tornar mais simpáticos os problemas que existem na rede", sublinhou.
 

 

Actualmente, a alguns meses de concluir o seu doutoramento no laboratório de Realidade Virtual do UCL, uma das três universidades britânicas de topo (a par de Oxford e Cambridge), o investigador destaca a importância de ter prosseguido os seus estudos no estrangeiro e de sempre ter conjugado a vida académica com incursões pelo meio empresarial.
 

 

"Essa experiência possibilitou-me conhecer a perspectiva dos utilizadores e estabelecer uma rede de contactos no mundo das empresas", explicou.
 

 

Depois de alcançar um feito inédito na sua licenciatura, nota 20 no trabalho de final de curso (com o tema "Virtual Worlds"), Manuel Oliveira consegue bolsa para realizar doutoramento directo no UCL, instituição onde continua a desenvolver o seu trabalho, intercalado com colaborações em empresas como a norte-americana Sprint Labs ou a canadiana Nortel.
 

 

Atribui parte da sua curiosidade científica à educação britânica que recebeu em criança, já que viveu em Inglaterra até aos dez anos.
 

 

Aos seis, o espaço e a engenharia das naves faziam parte dos seus interesses e chegou a escrever cartas (e a obter resposta) aos astronautas da NASA.
 

 

Entre convites de empresas norte-americanas, propostas para realizar investigação no parque tecnológico de Cambridge e apelos para publicar os contos de ficção científica que escreve, Manuel Oliveira, actualmente com 11 publicações científicas no currículo, ainda não decidiu o que fazer no futuro, mas Portugal não faz, por enquanto, parte da rota deste cérebro nacional.
 

 

Fonte: Lusa

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