Ciência explica vantagens da reprodução sexual

Teoria evolutiva esclarece papel do macho

18 outubro 2001
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Afinal para que serve o sexo? Porque razão acasalam os animais? Qual é o papel do macho nesta função? As perguntas parecem descabidas e as respostas evidentes. Mas, para os biólogos da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, EUA, as questões são pertinentes e as respostas aparecem hoje publicadas na revista americana «Science».
 

 

Numa visão de matemática simples, o sexo não faz sentido, e a produção de machos - que normalmente contribuem pouco para criar a prole - parece ter sido um desperdício de recursos valiosos.
 

 

William Rice e Adam Chippindale, os dois biólogos que lideraram o estudo, oferecem uma explicação para o papel dos machos: eliminar as mutações maléficas da união genética e preservar as características boas.
 

 

A função dos machos na natureza tem sido um dos assuntos mais discutidos entre casais à beira de uma ruptura. A velha acusação feminina de: «Afinal para que serves?», ou frases ainda mais violentas, têm alimentado desavenças quotidianas das que partilham a vida com um elemento do sexo oposto. Mas tudo isto tem um fundamento agora descoberto.
 

 

Os investigadores que efectuaram um estudo com moscas-das-frutas (drosófilas) vêm agora dar uma resposta cientifica. A reprodução sexual, segundo os cientistas, parece facilitar a transmissão de mudanças genéticas benéficas ao permitir que as espécies deixem parte das suas «marcas» genéticas para trás.
 

 

Em termos científicos, foi descoberto que a difusão de «evoluções progressivas», em que os traços benéficos se acumulam, foi mais rápida em populações de moscas que se reproduziam sexualmente, em comparação com outras «forçadas» a uma reprodução não cruzada.
 

 

Sexuadas e assexuadas
 

 

Esta teoria poderia levar-nos a pensar que caso as fêmeas recorressem à reprodução assexuada, produziriam duas vezes mais descendentes com genes idênticos aos seus, tal como acontece em numerosas espécies, como os pássaros ou as abelhas.
 

 

As razões para isto acontecer desafiam os cientistas, já que comparando as vantagens e desvantagens da reprodução sexuada e assexuada, a «assexuada sempre vence». Uma vantagem inegável das espécies assexuadas é que a população pode crescer de forma mais rápida, pois há possibilidade de uma clonagem «natural».
 

 

Mas existe uma «grande» diferença. É que as espécies assexuadas não passam pelo processo de recombinação - mistura do material genético que ocorre na reprodução sexual - um organismo assexuado passa 100 por cento dos seus genes para os descendentes, permitindo que combinações genéticas benéficas passem sem alterações de uma geração para outra.
 

 

No caso da reprodução sexual isso não acontece. Segundo Rice, as desvantagens do sexo aplicam-se tanto a machos como a fêmeas. E exemplifica: «O meu filho só tem metade dos meus genes. A outra metade é da mãe. Ou seja, apenas metade do meu genoma está incorporado na população». Mas Rice explica também as vantagens: «Caso fosse uma fêmea assexuada, a minha prole herdaria todo o meu genoma. Eu colocaria duas vezes mais genes na próxima geração. Com reprodução assexuada consegue-se o dobro de descendentes e de genes na população.»
 

 

Diversidade genética
 

 

A mistura genes de machos e fêmeas cria uma diversidade genética é a explicação clássica para a reprodução. No entanto, até ao momento, existiam poucas evidências que sustentassem uma teoria tão generalizada.
 

 

Agora, Rice mostrou, em 34 experiências distintas com moscas-das-frutas, que a conjugação certa para a reprodução pode resultar no aumento de mutações benéficas.
 

 

A experiência foi iniciada com a divisão das moscas em dois grupos, um com genes misturados e outro sem.
 

 

Posteriormente, foi introduzida nas duas populações a mutação responsável por criar olhos vermelhos, tidos como melhores que os brancos, e monitorizada a sua difusão por um período de 18 meses, o qual envolveu centenas de gerações. Da análise, Rice concluiu que existe «uma vantagem muito grande para a recombinação».
 

 

No início, a mutação foi passada entre as gerações em uma taxa semelhante nos dois tipos de moscas. Nas gerações posteriores, a mutação benéfica aumentou nas moscas que passaram pela recombinação, mas não nas outras. O que significa, segundo Rice, que «a população recombinada será melhor a longo prazo, mas não a curto prazo».
 

 

Paula Pedro Martins
 

 

MNI - Médicos Na Internet
 

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