Carmo Fonseca - Prémio DuPont de Ciência 2002

Uma paixão chamada genética molecular

24 novembro 2002
  |  Partilhar:

A paixão pela experimentação assaltou-a cedo, aos 16 anos, quando montou um pequeno laboratório em casa, prenúncio de uma dedicação que lhe valeria aos 43 o Prémio DuPont de Ciência, o primeiro atribuído a um português.
 

 

O galardão ibérico fez com que o nome de Maria do Carmo Fonseca saltasse para as páginas dos jornais, dando eco a uma actividade científica que, no entanto, começou muito antes.
 

 

Daí que conte no seu currículo com três primeiros prémios Pfizer, um galardão atribuído há mais de 40 anos pela Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e que distingue o melhor trabalho português de investigação, referente a qualquer ramo da Medicina Humana.
 

 

Licenciada com 18 valores pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (UL), onde é actualmente professora catedrática, Carmo Fonseca optou desde sempre pela investigação básica, motivada pela fantástica possibilidade de "ler o código que dá origem a um ser vivo com determinadas características".
 

 

Aquela que viria a ser a sua "paixão" começou a ganhar força quando ingressou num grupo de ciências naturais do Liceu de Almada. Daí a visitas regulares à Faculdade de Ciências foi um passo.
 

 

"Comecei então a fazer exercícios de experiências com a mosca da fruta, alguns dos quais envolviam já segregação dos genes deste insecto", explicou, em declarações à Agência Lusa, contando que, para isso, montou, aos 16 anos, um pequeno laboratório em casa, equipado com uma incubadora para as moscas.
 

 

Já na Faculdade, e após terminar o primeiro ano, a sua dedicação e boas notas fizeram com que David Ferreira, professor de Biologia Celular, a convidasse para um estágio de Verão no Instituto Gulbenkian de Ciência.
 

 

"Acabei por ficar lá até concluir a licenciatura", disse, salientando a importância de ter podido trabalhar, e posteriormente fazer o doutoramento, numa das poucas instituições portuguesas que tinham, na década de 80, meios para financiar a investigação básica.
 

 

Mas Maria do Carmo queria "ir mais além".
 

 

"As células são já um espelho dos genes e o que eu queria mesmo era perceber a fase inicial do processo da vida", continuou.
 

 

Por isso decidiu, aos 30, ir para o Laboratório Europeu de Biologia Molecular, em Heidelberg, na Alemanha, onde fez o pós- doutoramento.
 

 

O regresso antecipado aconteceu três anos depois, quando Carmo Fonseca aceitou o desafio do antigo professor de Biologia Celular David Ferreira, entretanto à frente do Centro de Estudos em Biologia e Patologia Molecular da Universidade de Lisboa, de constituir um grupo de trabalho próprio.
 

 

E assim nasceu o Laboratório de Biologia Celular e Molecular, actualmente com cerca de 17 investigadores, uma estrutura oscilante de professores catedráticos que partilham a investigação com o ensino na Faculdade de Medicina, estudantes de licenciatura, doutoramento e pós-doutoramento e bolseiros.
 

 

Aliás, foram os trabalhos desenvolvidos no Laboratório que lhe valeram este ano o Prémio DuPont de Ciência, o primeiro atribuído a um representante da comunidade científica portuguesa (e a uma mulher).
 

 

"Penso que foi muito mais importante ter sido um português a ganhar, até porque a ciência feita em Portugal tem tido pouca divulgação lá fora, tendência que é necessário inverter, mostrando que se faz investigação de ponta em território nacional", considerou.
 

 

O trabalho premiado insere-se num campo que a cientista considera percursor de uma nova era da medicina: a genética molecular.
 

 

"A nossa investigação focaliza-se no modo como funcionam os genes. O objectivo é perceber os mecanismos que permitem que a informação que está no genoma seja descodificada de forma a dar origem às células e aos organismos", explicou.
 

 

"Quando dominarmos o modo de funcionamento desse mecanismo saberemos identificar o que se passa de errado quando há mutações ou doenças genéticas", disse.
 

 

A partir daí nada será como dantes, perspectiva-se um futuro (próximo) onde os medicamentos serão "inteligentes", dirigindo-se às moléculas ou genes que estão alterados numa doença.
 

 

"Até a dosagem ou reposta aos medicamentos é determinada pelas características genéticas de um indivíduo, pelo que as drogas serão cada vez mais personalizadas e adaptadas", explicou.
 

 

Um futuro onde uma família com um historial de cancro poderá fazer um check up genético, aferindo a susceptibilidade de um dos seus membros vir a desenvolver a doença.
 

 

"Isso vai permitir um acompanhamento mais apertado dos indivíduos com susceptibilidade ao cancro, o que é bom porque nestas situações um diagnóstico precoce melhora a capacidade de intervir clinicamente, travando o processo da doença e contribuindo para a cura", indicou.
 

 

Um futuro onde as plantas e os animais serão manipulados geneticamente para melhor servirem as necessidades do homem, com benefícios ambientais.
 

 

"Com plantas modificadas geneticamente para serem mais resistentes poderemos poupar nos pesticidas químicos, corrigindo alimentos do ponto de vista nutricional, o que diminuirá a fome e as deficiências nutritivas de populações de todo o mundo", explicou.
 

 

O mesmo futuro que Maria do Carmo Fonseca sabe que desperta muita desconfiança, e até medo.
 

 

"Por isso é importante informar bem a sociedade sobre os aspectos positivos e negativos das novas técnicas. Dos benefícios e riscos evolvidos na manipulação genética de animais e plantas", considerou.
 

 

Segundo a investigadora, os riscos do ponto de vista científico são mínimos, uma vez que, por exemplo, a manipulação vegetal apenas acelera algo que as colheitas tradicionais já fazem desde a pré-história: seleccionar as que dão mais benefício ao homem.
 

 

"Isso arruma com o argumento das organizações ecologistas de que a genética vai destruir a biodiversidade, pois também as culturas tradicionais cometem a mesma alteração ecológica", disse.
 

 

O que não significa que as populações não tenham de ser informadas, cabendo a elas escolher o prato da balança que pesa mais: vantagens ou riscos.
 

 

Para os cientistas, admitiu, é "um desafio por demais irresistível dispor da técnica, conhecer o código e não poder usar a informação".
 

 

A sua ponderação é reconhecida a nível europeu, tendo participado várias vezes em Comissões de Aconselhamento da Comissão Europeia na área da genética molecular.
 

 

Depois de muitas horas passadas no laboratório, Maria do Carmo Fonseca gosta de passear ao ar livre com o seu cão mas também de ficar por casa, onde reserva algum tempo à leitura e à escrita... sobre genética.
 

 

Uma paixão que já a inspirou em 84 artigos publicados.
 

 

Fonte: Lusa

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.