Cancro : A situação em Portugal é a pior da UE

Investigador português explica as razões

22 setembro 2002
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Os doentes com cancro vivem cada vez mais tempo e melhor, mas Portugal é o país da UE que apresenta os piores índices de sobrevivência à doença, disse à Agência Lusa um investigador português.
 

 

Estamos a evoluir para uma situação em que o cancro pode ser considerado "uma doença crónica parcialmente controlável", explicou Manuel Sobrinho Simões, director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), Laboratório Associado (do Estado) que desenvolve investigação nesta área.
 

 

Segundo o investigador, os pacientes com cancro (em todos os órgãos) vivem hoje mais tempo e melhor, mas, "lamentavelmente, dentro da União Europeia Portugal apresenta os piores índices de sobrevivência à doença".
 

 

"Não somos eficientes a detectar a doença na sua fase inicial, nem os doentes a identificar as alterações que sinalizam um possível cancro", acrescentou.
 

 

Segundo o cientista, os pacientes chegam muito tarde aos hospitais, em fases muito avançadas da doença, quando já quase nada pode ser feito para lhes dar argumentos de sobrevivência.
 

 

O cancro, explicou, é um problema complexo, distinto no homem e na mulher, na criança e no velho, e cuja perigosidade varia consoante o órgão que ataca.
 

 

Assim, acrescentou, pode-se ajudar hoje a sobreviver pacientes com alguns tipos de cancro, mas quando a doença ataca os pulmões ou o pâncreas o problema torna-se mais difícil.
 

 

O cancro é basicamente uma alteração orgânica que ataca com base nas características do paciente, dificultando os tratamentos.
 

 

A doença pode matar-se, mas isso significaria também, nalguns casos, a morte do paciente.
 

 

O tratamento através de radiações é um bom exemplo: uma dose excessiva mataria as células cancerosas, mas acabaria também com o doente.
 

 

Esta doença que é de desregulação das células, que começam a multiplicar-se de forma desordenada, é diagnosticada todos os anos em mais quatro milhões de europeus. Trata-se da segunda causa de morte na Europa (750.000 óbitos anuais).
 

 

O Homem já foi à Lua e os avanços da ciência e da tecnologia são notícia frequente, mas Sobrinho Simões explica que a exploração espacial é um objectivo unifocal e o cancro envolve uma multidão de alterações, um problema para o qual não antevê que se possa falar em breve de cura.
 

 

Isto apesar de muitas formas da doença serem hoje absolutamente controláveis, especialmente quando detectadas precocemente, conferindo ao cancro, simultaneamente, o rótulo de doença crónica parcialmente controlável.
 

 

O director do IPATIMUP participou quinta-feira em Bruxelas numa reunião fomentada pela Comissão e Parlamento europeus destinada a convidar os protagonistas das áreas de intervenção empenhadas na luta contra o cancro a juntarem esforços.
 

 

A União Europeia (UE) vai injectar nos próximos quatro anos 400 milhões de euros em investigação contra o cancro, mas nota que isso só trará resultados se os investigadores e as agências de financiamento de toda a Europa trabalharem juntos em busca de objectivos comuns.
 

 

Quadros da administração comunitária notam que os investimentos canalizados para apoio da investigação contra o cancro estão longe de produzir os resultados desejados por médicos e cidadãos contribuintes.
 

 

Afirmam que isto deve-se parcialmente à fragmentação, duplicação e "falta de coerência" dos esforços da investigação (no sector) nos Estados membros da UE.
 

 

Sobrinho Simões comentou a propósito que a iniciativa da UE vai ser especialmente benéfica para os Institutos de Oncologia, Laboratórios Associados e Laboratórios de Estado, onde catalisará o cruzamento da informação disponível sobre a doença, bem como a difusão dos avanços em matéria de investigação.
 

 

O objectivo da UE, sublinhou, é constituir redes de excelência e incentivar projectos integrados, promovendo uma investigação interdisciplinar e multinacional.
 

 

Segundo o cientista português, os esforços da UE apontam no sentido de uma pesquisa de translação, do doente para o laboratório de investigação, e do laboratório para o doente.
 

 

Fonte: Lusa
 

 

 

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