Benzodiazepinas não recomendadas para tratamento de traumas

Estudo apresentado no “Journal of Psychiatric Practice”

27 julho 2015
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As benzodiazepinas são um tipo de medicamento utilizado com frequência no tratamento do transtorno do stress pós-traumático (TSPT). Contudo, cientistas norte-americanos revelam que este tipo de fármacos não são eficazes e poderão ser contraproducentes no tratamento dessa condição.
 

Jeffrey Guina e colegas da Universidade Estadual de Wright, no Ohio, EUA, realizaram uma revisão a ensaios clínicos e estudos observacionais relacionados com a utilização de benzodiazepinas em pacientes com TSPT ou com um trauma recente com possibilidade de evoluir para TSPT.
 

As benzodiazepinas são um tratamento comum, embora controverso, do TSPT. Se há profissionais que defendem que estes medicamentos podem reduzir a ansiedade, insónia e irritabilidade associada a esse transtorno, outros sugerem que estes poderão prolongar e piorar a condição.
 

Os cientistas reviram 18 estudos onde participaram mais de 5.200 indivíduos que sobreviveram a um ou mais traumas, nomeadamente lesões físicas, doenças mortais, traumas de guerra, traumas sexuais e desastres. De acordo com os achados desses estudos, a utilização das benzodiazepinas não foi associada a qualquer melhoria ou agravamento geral da condição, dos resultados da psicoterapia, dos níveis de agressividade ou de depressão e da utilização de drogas em doentes com TSPT.
 

Para a meta-análise foram usados 12 estudos que revelaram que a utilização de benzodiazepinas não foi associada a melhorias nos resultados dos tratamentos a doentes com TSPT. Por outro lado, a utilização destes fármacos foi associada a aumento do risco de TSPT em doentes com trauma recente.
 

“Aqueles estudos que forneceram dados suficientes sugerem que o risco de desenvolver TSPT é duas a cinco vezes maior nos grupos de recebem benzodiazepinas do que nos grupos de controlo”, revelou, em comunicado de imprensa, Jeffrey Guina.
 

O facto de as benzodiazepinas serem úteis no tratamento de doenças relacionadas com a ansiedade poderá ter a ver, na opinião de Guina, com o facto de as benzodiazepinas inibirem os centros do cérebro responsáveis pelo stress e ansiedade, que normalmente se encontram hiperativos nos doentes com TSPT. Contudo, estes fármacos atingem todas as áreas do cérebro indiscriminadamente, “incluindo as áreas que se encontram hipoativas no TSPT, como os centros cognitivo e da memória”, esclarece o investigador.
 

Uma vez que as benzodiazepinas podem atuar negativamente sobre a memória, estas têm a capacidade, na realidade, de impedir os pacientes de aprender a lidar com os sintomas da TSPT, um dos passos importantes no tratamento deste tipo de transtorno.
 

“As benzodiazepinas podem impedir essa experiência ao adormecerem as emoções, ao diminuírem a eficácia da aprendizagem e ao inibirem o processamento na memória de material aprendido durante a terapia”, acrescentou.
 

Dado que apenas foram realizados quatro ensaios aleatórios até ao momento, os autores concluem que serão necessários mais estudos do género para concluir que as benzodiazepinas pioram, no geral, o TSPT.
 

No entanto, baseando-se nas poucas evidências relativas à eficácia e nas evidências mais consistentes relativas aos potenciais riscos destes medicamentos, Guina e colegas concluem que estas são “relativamente contraindicadas” no tratamento de pacientes com trauma. Os cientistas consideram que existem várias outras formas de tratamento do TSPT – como psicoterapia, antidepressivos e inibidores adrenérgicos – que devem ser esgotadas antes de se adotar as benzodiazepinas.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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