Bactérias «comem» enxofre do petróleo sem alterar qualidade

Investigadores desenvolvem reactor biodessulfurizador

16 janeiro 2002
  |  Partilhar:

Um grupo de cientistas portugueses querem aproveitar um apetite particularmente voraz que certas bactérias têm por enxofre. Esta aplicação destina-se a remover este elemento químico do petróleo bruto, já que a sua emissão para a atmosfera é responsável pelas chuvas ácidas.
 

 

Um consórcio constituído por sete investigadores, do Instituto Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (INETI) e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (UNL), apresentou em Março de 2001 um projecto de três anos para desenvolver esta nova tecnologia biológica – a biodessulfurização.
 

 

Segundo Francisco Gírio, investigador do INETI e coordenador do projecto, a biodessulfurização apresenta vantagens em termos de custos, sendo um processo com muita eficácia relatiavmente à tecnologia actualmente utilizada para remover o enxofre do petróleo – a hidrodessulfurização – baseada em processos físico-químicos.
 

 

«Esta nova tecnologia baseia-se na remoção específica dos átomos de enxofre existentes nos anéis tiofénicos de alguns hidrocarbonetos existentes no petróleo, através da acção de bactérias que ‘abrem’ esses anéis para remover o enxofre sob a forma de sulfato e o incorporar este elemento no seu organismo», explicou à agência Lusa o investigador e director da Unidade de Fisiologia Microbiana e de Bioprocessos do Departamento de Biotecnologia do INETI.
 

 

O que acontece é que estas bactérias «comem» o enxofre do petróleo mantendo intacta a estrutura dos hidrocarbonetos. Dessa forma, a qualidade do petróleo biodessulfurizado mantém-se inalterada.
 

 

Este projecto continua a aguardar avaliação por parte da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT - organismo do Ministério da Ciência e da Tecnologia), sendo necessário para a sua concretização um financiamento de cerca de 140.000 €.
 

 

«O projecto pretende aprofundar o conhecimento de uma bactéria dessulfurizadora isolada pelo INETI, a Gordonia alkanivorans, e identificar e isolar as proteínas responsáveis pela acção dessulfurizadora», explicou Francisco Gírio.
 

 

A intenção do consórcio é passar da teoria à prática, iniciando a construção de um reactor piloto que valide essa tecnologia biológica de forma a ser possível implementar a biodessulfurização em Portugal a curto prazo. «Nessa fase, é nossa intenção convidar empresas petrolíferas a instalarem unidades de demonstração», sublinhou.
 

 

Enxofre: um problema ambiental
 

 

O alto teor de enxofre do petróleo bruto é, simultaneamente, um problema ambiental e legislativo. «Se o enxofre não for removido no processamento do petróleo libertam-se para atmosfera grandes quantidades de dióxido de enxofre, composto responsável pelas chuvas ácidas», explicou Francisco Gírio.
 

 

Como sublinha este investigador do INETI, as reservas de petróleo com baixo teor de enxofre estão a diminuir, tornando o seu preço mais elevado que o de petróleos com teores de enxofre mais altos. Além disso, os níveis de enxofre autorizados por lei têm vindo a descer drasticamente obrigando as indústrias petrolíferas a investimentos elevadíssimos em unidades de hidrodessulfurização.
 

 

Na União Europeia, em 2000, o teor máximo admissível de enxofre foi legislado em 150 ppm (partes por milhão) para as gasolinas sem chumbo e 350 ppm para o gasóleo, prevendo-se que em 2005 estes valores desçam para 50 ppm e em 2007 para apenas 15 ppm.
 

 

«A nível mundial, diversas entidades governamentais e companhias petrolíferas já reconheceram que a tecnologia disponível da hidrodessulfurização não lhes permite cumprir as futuras restrições ambientais de uma forma eficiente e económica», explicou Francisco Gírio.
 

 

Ainda segundo Francisco Gírio, se o projecto do consórcio que lidera tiver condições para avançar, «num período entre três e cinco anos poderá existir uma alternativa à hidrodessulfurização, mais barata e eficaz».
 

 

MNI – Médicos Na Internet
 

Fonte: Lusa

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.