Autistas não reconhecem a voz humana

Cientistas identificam anomalia no cérebro

23 agosto 2004
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Uma anomalia no reconhecimento da voz humana, observada no funcionamento do cérebro dos autistas através de ressonância magnética, poderá explicar em parte as dificuldades de relacionamento social dos portadores desta síndroma, sugere um novo estudo. O estudo, publicado na edição de Agosto da revista científica Nature Neuroscience, revela uma incapacidade dos autistas em activar as zonas do cérebro especificamente dedicadas ao reconhecimento da voz humana. O trabalho foi realizado em Orsay (região parisiense) pela equipa de Mónica Zilbovicius (Instituto Francês da Investigação e da Saúde, serviço hospitalar Frédéric Joliot) em colaboração com a Universidade de Montréal, Canadá. O autismo é uma alteração no desenvolvimento cerebral que incapacita os seus portadores de se relacionarem normalmente com o que os rodeia. Uma ou duas crianças em cada mil tem probabilidades de nascer com autismo, sendo que a prevalência é essencialmente masculina. Para identificar as bases cerebrais desta doença, os investigadores de Orsay estudaram, recorrendo a imagens obtidas por ressonância magnética funcional (IRM funcional), como o cérebro dos autistas adultos apercebe a voz humana em relação a outros sons. A voz é um «estímulo auditivo rico em informação sobre a identidade e o estado emocional do interlocutor», sublinham. A voz é também rica em informações «não-verbais: ela constitui uma verdadeira cara auditiva que nós sabemos interpretar. As nossas capacidades em percebermos estas informações vocais desempenham um papel crucial nas nossas interacções sociais», explicam. Os cientistas registaram a actividade cerebral de cinco autistas adultos e de oito voluntários sãos enquanto ouviam sequências de sons que alternavam voz humana (palavra, choro, riso, canto) e outros barulhos «não vocais» (animais, sinos, instrumentos de música, carros). «Os resultados revelam nos autistas uma ausência de activação da área específica da percepção da voz», sublinham os investigadores. Nos autistas, as regiões do cérebro activadas são exactamente as mesmas, mesmo que se oiçam vozes humanas ou outros sons (música, carros). Por outro lado, à pergunta «o que entendeu durante o exame», os autistas apenas indicam 8,5 por cento dos sons como voz humana (contra os 51,2 cento apontados pelos restantes indivíduos), confirmando a sua fraca capacidade de reconhecimento. Estudos anteriores com a técnica de ressonância magnética tinham já revelado nos portadores da síndroma uma disfunção comparável para o reconhecimento de caras. A identificação destas deficiências de percepção «poderá permitir elaborar estratégias de reeducação» adaptadas, sugerem ainda os autores do estudo. Fonte: Lusa

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