Ausência da gravidade afecta cérebro dos ratos

Circuitos e sistemas neuronais alteram-se no Espaço

17 setembro 2002
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A ausência da força da gravidade produz alterações significativas nos circuitos neuronais e sistemas hormonais do cérebro, indica uma experiência realizada com ratos enviados para o espaço por um grupo de cientistas espanhóis.
 

 

A investigação, no âmbito do projecto "Neurolab" da NASA, baseou-se no estudo de 11 ratos fêmea, de apenas 14 dias de idade, que permaneceram durante 16 dias no espaço, explicaram os autores do estudo, Javier de Felipe e Luis Miguel Garcia-Segura, ambos do Instituto Cajal do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC).
 

 

Os animais foram mortos em dois turnos, o primeiro quatro horas após o regresso à Terra (para conhecer o "efeito agudo do voo espacial") e o segundo após quatro meses, de forma a poder averiguar se os danos no cérebro eram transitórios ou permanentes.
 

 

Segundo De Felipe, que dirigiu a equipa encarregada de estudar o córtex cerebral, após o voo a bordo do vaivém espacial observaram-se no cérebro dos ratos "alterações permanentes nas ligações entre os neurónios e, portanto, modificações no processamento da informação".
 

 

"Desconhecemos se estas alterações são patológicas ou pressupõem uma melhor adaptação do cérebro ao espaço, mas essas modificações podem ser prejudiciais no regresso ao nosso planeta", acrescentou.
 

 

Modificações importantes
 

 

Garcia-Segura, director do Instituto Cajal que se encarregou de investigar o hipotálamo (responsável por regular as hormonas, substâncias químicas libertadas no sangue), explicou que também foram detectadas importantes modificações no funcionamento desta parte essencial do cérebro.
 

 

O desequilíbrio do sistema hormonal provocou não apenas alterações permanentes impeditivas da readaptação às condições normais da gravidade terrestre, mas levou também a que os ratos fêmea que se tornaram mães não prestassem atenção às suas crias, muitas das quais morreram.
 

 

Garcia-Segura explicou que este comportamento "aberrante" se deveu fundamentalmente à segregação anormal da hormona da oxitocina, essencial para a produção do leite materno, para o parto e para a relação entre mães e filhos.
 

 

Futuro no espaço?
 

 

Estes resultados voltam a pôr em causa a possibilidade dos seres humanos poderem ter filhos em futuras colónias espaciais e demonstram que são necessários mais estudos sobre a influência da ausência de gravidade no cérebro.
 

 

De Felipe sublinhou que os animais permaneceram 16 dias no espaço mas, se a estada tivesse sido prolongada por três ou quatro meses, "provavelmente os efeitos teriam sido ainda mais acentuados".
 

 

No entanto, os investigadores ressalvaram que os ratos tinham apenas 14 dias, um momento em que o seu cérebro ainda está a desenvolver-se e a sua plasticidade (capacidade de adaptação) é maior que a de um adulto.
 

 

No homem, o desenvolvimento pós-natal dos circuitos sinápticos (maduração das conexões entre neurónios) prolonga-se durante muitos anos e termina provavelmente durante a adolescência, enquanto no rato acontece nas primeiras quatro semanas.
 

 

A experiência do grupo espanhol dentro da missão "Neurolab" da NASA, em que participam um total de 26 investigadores de todo o mundo, é pioneira quanto à influência da estada espacial no cérebro, uma questão fundamental para os futuros voos espaciais de longa duração.
 

 

O estudo dos dois investigadores mereceu publicação nas revistas científicas especializadas "Cerebral Cortex" e "Developmental Brain Research".
 

 

Fonte: Lusa
 

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