Atividade cerebral em coma profundo em EEG plano

Estudo publicado na “PLOS ONE”

23 setembro 2013
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Uma equipa de investigadores descobriu atividade cerebral para além da linha plana do eletroencefalograma (EEG) em pacientes com coma profundo, tendo-lhes chamado complexos-Nu.
 

Segundo os dados científicos existentes, foi determinado que para além da chamada “linha plana” do eletroencefalograma, não existe qualquer atividade cerebral, nem possibilidade de vida. No entanto, esta descoberta vem apontar que existe um novo limiar no funcionamento cerebral humano e animal.
 

Os investigadores da Universidade de Montreal, no Canadá, debruçaram-se sobre o caso de um paciente em estado de coma profundo, com hipoxia extrema, causado por medicação para epilepsia. Após terem sido contactados pelo médico que seguia o paciente, devido à presença de fenómenos inexplicáveis no seu EEG, os cientistas aperceberem-se que “existia atividade cerebral, desconhecida até agora, no cérebro do paciente”, afirmou Florin Amzica, responsável pelo estudo.
 

A equipa de investigadores decidiu então reproduzir o estado do paciente em gatos, que são o modelo animal mais adequado para estudos neurológicos. Um dos testes realizados foi a indução de coma extremamente profundo, mas totalmente reversível, nos animais. Os felinos passaram a linha plana (isoeléctrica) do EEG, associada ao silêncio no córtex (a parte que comanda o cérebro).
 

Foi observada atividade cerebral em 100% dos gatos em coma profundo, em forma de oscilações geradas no hipocampo, que é a parte do cérebro responsável pela memória e pelos processos de aprendizagem. Estas ondas, ou complexos-Nu foram as mesmas observadas no paciente humano.
 

Segundo o responsável do estudo, esta descoberta é muito relevante, salientando igualmente que quem teve ou tem um ente querido em morte cerebral ao qual se teve que decidir desligar uma máquina de suporte à vida, não se deve preocupar, pois os critérios de diagnóstico de morte cerebral são muito rigorosos. Esta descoberta poderá, a longo prazo, conduzir a uma redefinição desses mesmos critérios.
 

O aspeto mais relevante e útil desta descoberta é o seu potencial terapêutico, a neuroprotecção, oferecida pelo coma extremo. Alguns pacientes após sofrerem uma grave lesão são induzidos em coma artificial como forma de proteger o organismo e cérebro para que recuperem. Florin Amzica acha que o tipo de coma no qual os gatos foram induzidos poderá oferecer uma maior proteção aos pacientes.
 

“Um cérebro que esteve inativo durante um coma prolongado poderá estar em pior estado do que um cérebro que se manteve com uma atividade mínima. A pesquisa sobre os efeitos do coma profundo e extremo durante o qual o hipocampo se mantém ativo através de complexos-Nu é absolutamente vital para os pacientes”.
 

Este estudo demonstrou também que o cérebro consegue sobreviver em coma extremamente profundo se as estruturas nervosas se mantiverem inalteradas.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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Já se faz

Aqueles que usam o "neurofeedback" como estratégia de intervenção na recuperação de estados de coma (que fiz na Inglaterra e em alguns casos em Portugal) sabem que o cérebro responde a sons principalmente aqueles que são muito queridos dos pacientes. O uso do qEEG nestas situações é essencial pois com este método pode-se identificar as vozes dos familiares/amigos que o paciente tem mais ligação e assim ajudar a ativar o cérebro para respostas mais conscientes pois verifica-se que assim que estes começam a falar o cérebro responde e muitos pacientes acordam do coma. Este estudo só veio confirmar o que já fazemos só que agora verifica-se que, realmente, é o hipocampo que está sempre alerta mesmo em coma. Ele é, sem dúvida, o nosso radar sempre ligado e ativo.

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