Atalhar a dor passa por conhecer melhor a Canabis

Especialista explica os benefícios

07 novembro 2002
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O estudo dos efeitos terapêuticos da canabis absorve investimentos de laboratórios em todo o mundo, sendo de prever que faltem poucos anos para que o combate à dor passe pela utilização desta planta controversa.
 

 

A consideração é de Jorge Gonçalves, da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, que esclareceu, contudo, que isso não significa que os efeitos terapêuticos sejam conseguidos "pondo os doentes a fumar canabis".
 

 

Até porque a quantidade de substâncias activas presentes na planta dependem de um conjunto de variáveis, incluindo o local onde cresce, as propriedades do solo onde foi semeada e a altura em que é colhida.
 

 

"Uma planta é um laboratório que produz os seus compostos em função da matéria prima que lhe é oferecida e das condições ambientais", explicou Jorge Gonçalves, em declarações à Agência Lusa.
 

 

"Assim sendo, não há garantia sobre o teor de substâncias que um +charro+ contém ou a quantidade que está a ser inalada, podendo mesmo registarem-se efeitos antagónicos", explicou o investigador do Centro de Estudos de Química Orgânica Fitoquímica e Farmacologia.
 

 

Apesar disso, o Canadá liberalizou o consumo de canabis para fins medicinais, uma acção sem precedentes em todo o mundo e que se destina a doentes com sida, cancro, esclerose múltipla, epilepsia e artrite.
 

 

As potencialidades terapêuticas da canabis, em particular no alívio da dor, começaram a ser alvo de investigação em vários laboratórios de todo o mundo na década de 90.
 

 

 

Analgésico em potencial
 

 

E apesar da investigação estar ainda numa fase embrionária, Jorge Gonçalves tem uma certeza: a canabis, planta cujo consumo é ilegal em Portugal, poderá vir a ser uma via complementar no tratamento da dor, um mercado onde ainda escasseiam compostos eficazes.
 

 

"As necessidades em fármacos analgésicos estão longe de estar satisfeitas e há tipos de dor que ainda não são controlados eficazmente com doses toleráveis de opiáceos (compostos extraídos do ópio)", referiu, indicando que os canabinóides poderão representar um meio importante de inibir a dor através de um mecanismo diferente.
 

 

O tetra-hidrocanabinol, o canabidiol e o canabigerol são alguns dos compostos químicos presentes de forma natural na planta que apresentam propriedades farmacológicas.
 

 

"Em termos moleculares, os canabinóides actuam em receptores próprios (proteínas com as quais têm uma elevada afinidade) existentes na membrana de muitas células, quer no sistema nervoso central quer a nível periférico", explicou, acrescentando que estes receptores, que existem em todas as pessoas mesmo nas que não consomem canabis, desempenham funções fisiológicas.
 

 

Os principais efeitos farmacológicos exercidos por essas substâncias são inibição da dor (efeito analgésico), redução da ansiedade, inibição das náuseas e vómitos (efeito anti-emético).
 

 

"Outros efeitos têm sido também propostos embora não estejam suficientemente documentados, nomeadamente em casos de glaucoma, como relaxante muscular, no alívio da asma ou enxaquecas e como anti-inflamatório, anti-cancerígeno e inibidor da degeneração cerebral", enumerou.
 

 

Mais investigação
 

 

Actualmente existem já alguns medicamentos contendo fármacos extraídos da planta ou produzidos em laboratório (que podem ser alterações de compostos extraídos ou integralmente sintetizados) com a capacidade de actuarem sobre os receptores dos canabinóides.
 

 

No entanto, "em termos de pesquisa, as apostas estão ao nível da caracterização dos receptores onde actuam os canabinóides e na síntese de novos fármacos".
 

 

"O conhecimento dos receptores dos canabinóides vai permitir conhecer os fármacos que activam preferencialmente uns sem influenciar muito outros, o que vai permitir, em termos práticos, obter medicamentos analgésicos que não repercutam alterações de comportamento", disse.
 

 

Um avanço que representará novas formas de abordagem da dor, das náuseas e vómitos, sintomas que acompanham doenças como o cancro e a sida.
 

 

No entanto, advertiu, uma eventual utilização da canabis para fins terapêuticos nada tem a ver com a legalização da marijuana, tal como a utilização da morfina não levou à legalização do ópio.
 

 

"O conhecimento dos efeitos da canabis vai, isso sim, permitir conhecer alguns compostos farmacologicamente activos e explorar esta via para combater o sofrimento de muitas pessoas, algumas em situação desesperada e sem grandes alternativas terapêuticas", sublinhou o investigador.
 

 

Intrinsecamente ligada ao aumento da esperança de vida nas sociedades modernas, e a doenças como o cancro e a sida, a dor ganhou nos últimos anos o estatuto de problema de saúde pública, existindo já uma Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED).
 

 

Além disso, as vítimas de doença crónica em fase terminal têm já consagrado o direito ao alívio da sua dor, incluindo para tal que tenham acesso à prescrição e utilização, recomendada pela Organização Mundial da Saúde, de analgésicos opióides.
 

 

"No entanto, os analgésicos opióides colocam o problema de causarem forte dependência, depressão respiratória e efeitos periféricos. Por exemplo inibição da motilidade intestinal", disse Jorge Gonçalves. "Se tivermos outras opções de modular a dor podemos combinar vários tipos de analgésicos, conseguindo o mesmo ou melhor efeito com menos reacções adversas", explicou.
 

 

Fonte: Lusa
 

 

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