Aspirina – o medicamento que se re-inventa a si próprio
27 fevereiro 2002
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Originalmente, a aspirina surgiu como um medicamento para aliviar as dores. É vulgarmente utilizada como analgésico mas também pode ser utilizada no combate a viroses que frequentemente atacam fetos e pacientes com o sistema imunológico debilitado. Também tem uma acção inibitória do processo de coagulação sanguínea pelo que pode ajudar a prevenir ataques cardíacos e enfartes. Além disso, este fármaco ainda promove o retrocesso do desenvolvimento de pólipos que, de outra forma, dariam origem a cancro do cólon.
 

 

Agora, um grupo de investigadores descobriu mais uma acção a juntar a esta vasta lista de efeitos farmacológicos da aspirina. Numa investigação liderada por Thomas Shenk da Princeton University (New Jersey, EUA), descobriu-se a aspirina tem a capacidade de bloquear os processos de infecção de algumas viroses comuns, como é o caso de infecções pelo vírus citomegalovírus (CMV).
 

 

Perante o anúncio desta descoberta, o entusiasmo de Nick Henderson, da European Aspirin Foundation, é evidente nas suas declarações à Newscientist: «para um medicamento com 100 anos de história, a aspirina nunca pára de revelar surpresas», afirmou. «Cada ano que passa, a aspirina re-inventa-se a si própria,» concluiu.
 

 

Nesta investigação Shenk e seus colaboradores descobriram que a aspirina e seus similares farmacológicos bloqueiam a replicação (multiplicação) de CMV em células infectadas.
 

 

O CMV pertence à família dos herpesvírus. Sendo muito comum, é um vírus que raramente causa problemas sérios, excepto quando infecta grávidas, comprometendo o desenvolvimento embrionário normal, e em pacientes com doenças comprometedoras das funções do sistema imunológico, como a SIDA, por exemplo.
 

 

As revelações do estudo
 

 

Os fármacos da família da aspirina bloqueiam a produção da ciclooxigenase 2, uma enzima (substância que actua como catalisador em certas transformações químicas) conhecida como COX-2. A COX-2 desempenha um papel fundamental na produção da prostaglandina E2 – uma hormona responsável pelo aparecimento dos sintomas associados ao processo inflamatório, como a febre, por exemplo. Esta hormona também pode ser utilizada durante infecções víricas constituindo um recurso que os vírus utilizam para os ajudar no seu processo de replicação dentro das células infectadas.
 

 

O grupo de trabalho de Shenk demonstrou os fibroblastos (recolhidos a partir de pele humana) quando infectados por CMV produziam grandes quantidades de prostaglandina E2, cerca de 50 vezes mais do que o normal. No entanto a produção desta hormona era interrompida quando as células infectadas eram expostas à aspirina ou seus similares. Ao mesmo tempo, a replicação dos vírus dentro dos fibroblastos infectados diminuía abruptamente: cerca de 100 vezes.
 

 

Para comprovar este efeito do fármaco, os investigadores fizeram uma contra-prova: eles voltaram a expor as células àquela hormona mergulhando-as em prostaglandina E2 e os vírus CMV retomaram os níveis normais de replicação. De acordo com os autores do estudo, o fornecimento de prostaglandina E2 a partir do meio extracelular comprova que a aspirina funcionou como um inibidor da produção daquela hormona.
 

 

Shenk acredita que a aspirina, assim como os similares, quando administrada em doses baixas pode ser de grande utilidade na prevenção de infecções víricas, especificamente por CMV, em grávidas e em pessoas cujo sistema imunológico se encontre, por qualquer razão, debilitado. Para este investigador, a aspirina administrada em doses baixas pode trazer benefícios terapêuticos e profiláticos muito revelantes.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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