Apostar no ensino básico para vencer atraso

Investigadir defende "revolução de mentalidade"

07 março 2003
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O atraso da ciência portuguesa só pode ser vencido com uma revolução nas mentalidades, que passa por uma aposta no ensino básico, defendeu à Agência Lusa um investigador português radicado no estrangeiro.
 

 

Foi essa a razão porque Manuel Paiva, investigador de origem portuguesa radicado na Bélgica, aceitou deslocar-se a Portugal para falar perante uma plateia de jovens no Pavilhão do Conhecimento (Lisboa) sobre algumas das experiências científicas que já coordenou, em colaboração com a Agência Espacial Europeia (ESA) e com a NASA.
 

 

O cientista de 60 anos, que dirige o Laboratório de Física Biomédica da Universidade Livre de Bruxelas, desempenha actualmente funções de investigador principal na série de experiências pedagógicas que a ESA já começou a realizar.
 

 

"O espaço é não só um sítio ideal para se compreenderem melhor certos princípios da física como um meio extraordinário para suscitar vocações científicas", sublinhou.
 

 

Sendo a falta de vocações científicas um problema premente na União Europeia, a ESA decidiu dedicar 1 por cento do seu orçamento anual a actividades pedagógicas dedicadas ao ensino.
 

 

Assim, a Agência Espacial Europeia, organismo que Portugal integra desde 2000, decidiu realizar, a partir de cada uma destas missões científicas no espaço, um vídeo de cerca de 15 minutos, a distribuir depois por todas as escolas europeias.
 

 

A série de experiências pedagógicas iniciou-se em Novembro de 2002, com o astronauta belga Frank De Winne, e prosseguirá com o espanhol Pedro Duque e o holandês André Kuipers.
 

 

O primeiro vídeo deverá estar concluído em Julho, enquanto as missões seguintes não estão ainda agendadas devido ao desastre do Columbia que teve como consequência a suspensão do programa de vaivéns norte-americano.
 

 

Nestas missões, os astronautas realizam experiências ilustrando, por exemplo, as leis de Newton, que regem toda a mecânica do Universo, e que são mais facilmente demonstráveis no espaço do que em Terra.
 

 

Por exemplo, a primeira lei de Newton, a da inércia, afirma que se não houvesse interferências (atrito) um objecto que estivesse parado ficaria eternamente parado e outro que estivesse em movimento, mantê-lo-ia indefinidamente.
 

 

"Ora na Terra existem sempre interferências, ao contrário do que acontece numa situação de imponderabilidade (ausência de gravidade)", justificou Manuel Paiva.
 

 

Aliás, a ideia de "demonstrar" no espaço leis básicas da física como as de Newton já tinha sido proposta há alguns anos por Manuel Paiva, no seu livro "Diálogos sobre Portugal", publicado há cinco anos.
 

 

A ideia do livro, que o autor sublinha ter tido mais sucesso na Bélgica do que em Portugal, surgiu na sequência de uma conferência que Manuel Paiva realizou no país.
 

 

"Encontrei nessa altura as mesmas mentalidades que, no tempo do fascismo, me fizeram deixar Portugal", disse.
 

 

A desconfiança em relação às chefias e a dificuldade em aceitar críticas foram alguns dos traços que, segundo o cientista, continuavam e continuam a dominar o panorama nacional.
 

 

"Por isso considero que para se mudarem estas mentalidades é ao nível do ensino básico que tem de ser feito um maior esforço", sublinhou.
 

 

Recentemente, Manuel Paiva fez o exercício de dividir o número de publicações científicas nos últimos dez anos numa prestigiada revista de Medicina, The Lancet, pelos habitantes de vários países, e verificou que Portugal ficava em último lugar, atrás do Luxemburgo, onde, realçou, "não existem Universidades".
 

 

Fonte: Lusa

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