Antidepressivos menos eficientes em pessoas humilhadas ou vítimas de abuso

Estudo conduzido pela Universidade de Coimbra

20 março 2013
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Os medicamentos antidepressivos apresentam uma probabilidade de não produzirem efeito quase cinco vez superior nos doentes em situação de desemprego ou que tenham sido vítimas de abuso revela um estudo liderado pelo psiquiatra Serafim Carvalho.

 

Desenvolvida ao longo de 27 meses e com a participação de 139 doentes, os resultados desta investigação permitiram perceber porque é que um grupo significativo de pessoas com depressão se revela tão difícil de tratar.

 

“Havia alguma intuição de que, em casos de depressão, precisamente as pessoas que mais precisavam da ação dos fármacos eram aquelas em que estes, muitas vezes, produziam menos efeitos”, esclarece o investigador que é psiquiatra do Hospital Magalhães Lemos do Porto e docente da Cooperativa de Ensino Universitário (CESPU).

 

Serafim Carvalho explicou à Lusa que os doentes que tenham experienciado acontecimentos e dificuldades de vida marcados pela “humilhação” e em situações de submissão forçada conhecida por “entrapment” e, que se sentem como estando num “beco se saída” apresentavam 4,6 vezes mais possibilidades resistência ao tratamento com esse tipo de medicação. “No caso de maus tratos ou abusos sexuais na infância ou adolescência, essa probabilidade resistência ao tratamento é 3,6 vezes superior”.

 

Segundo a equipa de investigadores, as vítimas de violência doméstica, quem sofreu abusos sexuais na infância ou adolescência, quem no ano anterior à depressão viveu experiências humilhantes no emprego, com patrões ou chefes prepotentes, ficou desempregado e em circunstâncias de beco sem saída, teve roturas conjugais em que sentiu ter ficado a perder, ou as pessoas dominadas por sentimentos de derrota apresentam uma resistência muito superior aos antidepressivos.

 

“A questão é que ninguém tinha ainda estudado a resistência ao tratamento farmacológico da depressão de vítimas de experiências humilhantes – um grupo que, no atual contexto de crise, tem vindo a aumentar –, de pessoas dominadas pelo sentimento de derrota ou de vítimas de abuso sexual na infância ou na adolescência”, afirma o psiquiatra.

 

Os resultados pressupõem, segundo Serafim Carvalho, dois tipos de alterações na atividade clínica de psiquiatras e psicólogos. “A primeira é que, no início da avaliação do doente, se terá de dar desde logo muito mais atenção a episódios da infância e adolescência – pedofilia, bullying, abuso físico, negligência. E, por outro lado, devem-se avaliar muito bem as condições de vida das pessoas nos meses que antecederam a sua entrada em depressão”, explicou.

 

A segunda alteração consiste em “utilizar mais a psicoterapia, ou a combinação desta com o tratamento farmacológico”, considerando que os antidepressivos são muito menos eficazes nas situações mencionadas

 

O estudo demonstrou ainda que, muitas vezes, a vergonha de se ter sofrido determinado episódio como por exemplo o desemprego, é muito mais patológico do que a vivência quotidiana das dificuldades que este provoca.

 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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