Antibióticos podem eliminar crises envolvidas na anemia falciforme

Estudo publicado na revista “Nature”

21 setembro 2015
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A toma de antibióticos para eliminar o microbioma pode prevenir crises de anemia falciforme e impedir a ocorrência de complicações a longo prazo associadas à doença, como a falência de órgãos, dá conta um estudo publicado na revista “Nature”.
 
Os indivíduos com anemia falciforme têm uma mutação genética hereditária que afeta a hemoglobina, uma proteína dos glóbulos vermelhos ou eritrócitos que transporta oxigénio para os tecidos. Os eritrócitos com a hemoglobina afetada assumem a forma de foice, tornam-se menos flexíveis e tendem a obstruir os pequenos vasos o que impede, consequentemente, o fluxo de sangue e oxigénio. Isto pode conduzir a ataques de dor severa, conhecidos como crise das células falciformes ou crise vaso-oclusiva, que muitas vezes requerem hospitalização.
 
Níveis deficientes de oxigénio resultantes da anemia falciforme podem, ao longo dos anos, danificar órgãos, incluindo o baço, fígado e rins.
 
Estudos anteriores realizados pelos investigadores do Colégio de Medicina Albert Einstein, nos EUA, constataram que o bloqueio dos vasos sanguíneos ocorria quando os glóbulos vermelhos falciformes se ligavam a um tipo de células do sistema imunitário, os neutrófilos, que tinham aderido às paredes do vasos. Os neutrófilos são um tipo de leucócitos que protegem contra doenças causadas por microrganismos. 
 
Contudo, os neutrófilos não são todos iguais. Enquanto uns se encontram aparentemente inertes, outros estão excessivamente ativados e promovem a inflamação, o que pode ser útil para atacar os microrganismos, embora promova a captura dos glóbulos vermelhos falciformes dentro dos vasos sanguíneos. 
 
No estudo, os investigadores começaram por analisar se a idade dos neutrófilos influenciava o facto de estes ficarem ativos e pró-inflamatórios. Através de experiências realizadas em ratinhos verificou-se que na realidade os neutrófilos ficavam mais ativos à medida que envelheciam. Observou-se que o microbioma produzia substâncias químicas que atravessavam a barreira intestinal e entravam na corrente sanguínea, onde geravam um subtipo de neutrófilos envelhecidos e excessivamente ativos que contribuíam para a anemia falciforme.
 
Uma vez que o microbioma parece enviar sinais para os neutrófilos envelhecerem, os investigadores decidiram verificar se a utilização de antibióticos capazes de eliminar estes microrganismos poderia ajudar contra a anemia falciforme.
 
Através da utilização de modelos de ratinhos para a anemia falciforme, os investigadores verificaram que os animais afetados pela doença tinham cinco vezes mais neutrófilos envelhecidos que os animais de controlo. Contudo, quando o microbioma foi eliminado através da toma de antibióticos houve uma diminuição acentuada deste tipo de neutrófilos. Adicionalmente observou-se que o tratamento com antibióticos impedia a crise das células falciformes.
 
"O que foi mais surpreendente foi o efeito dos antibióticos no dano crónico dos tecidos. Descobrimos que o aumento do baço dos ratinhos com anemia falciforme foi significativamente menor nos animais em que microbioma foi eliminado. As análises realizadas ao fígado revelaram uma redução dos danos, incluindo inflamação, cicatrização e morte do tecido”, revelou, em comunicado de imprensa, um dos autores do estudo, Paul S. Frenette.
 
Experiências realizadas em crianças com anemia falciforme também indicaram que o tratamento com penicilina reduziu significativamente o número de neutrófilos envelhecidos.
 
Os investigadores esperam no futuro realizar um ensaio clínico para determinar se a toma de antibióticos poderá ajudar os pacientes com anemia falciforme a impedir a crise das células falciformes e os danos dos órgãos associados à doença.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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