Álcool nas estradas: Prevenção + Fiscalização, eis a Solução

A opinião do Dr. Manuel Pinto Coelho

30 novembro 2001
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Está na ordem do dia a polémica levantada pela decisão do Governo de baixar de 0,5 para 0,2 gramas por litro, o limite máximo permitido por lei da taxa de alcoolemia.
 

 

Tal medida surgiu com o objectivo de contrariar a alta taxa de sinistralidade rodoviária, em que Portugal ocupa um vergonhoso último lugar entre todos os países da União Europeia.
 

 

A alcoolemia ou taxa de álcool no sangue, é proporcional à quantidade de álcool ingerido e, do ponto de vista psicomotor, pode provocar descoordenação dos movimentos bem como aumento do tempo de reacção e contribuir para uma importante diminuição da vigilância e reflexos junto dos condutores de veículos e não só.
 

 

Vai ainda, depois duma breve sensação de euforia e bem estar, dar também a ilusão de mais força e destreza.
 

 

De acordo com um relatório recente do Instituto de Medicina Legal de Lisboa, quase metade (48,7 %) dos condutores vítimas de acidentes de viação em 2000 com vestígios de álcool no sangue e autopsiados no Instituto, apresentavam uma taxa de alcoolemia igual ou superior a 1,2 gramas por litro, 7,7 % entre 0,8 e 1,2 e 10,3% entre 0,5 e 0,8 g/l.
 

 

O Instituto revela ainda que durante o ano de 2000, ocorreram nas estradas portuguesas 33.342 acidentes com vítimas, dos quais resultaram 1.629 mortos. Destes, em 40 % dos casos foram encontrados vestígios de álcool no sangue
 

 

Embora a alcoolemia não seja o único factor de perigo a ter em conta – outros factores podem influenciar a forma de conduzir – estima-se que no conjunto da União Europeia, 25% dos automobilistas mortos, apresentem taxas de alcoolemia superiores ao limite legal aceite em cada país.
 

 

A questão que se coloca e que tanta polémica tem levantado é se A REDUÇÃO DO LIMITE MÁXIMO PERMITIDO POR LEI DE TEOR DE ÁLCOOL NO SANGUE, CONSEGUIRÁ FUNCIONAR COMO MOLA IMPULSIONADORA PARA UMA DIMINUIÇÃO DA SINISTRALIDADE, OU NÃO?
 

 

Segundo o “Expresso” de 17 de Novembro, as últimas estatísticas da Direcção Geral dos Transportes da Comissão Europeia indicam que apenas em alguns países essa diminuição conseguiu baixar o número de acidentes fatais envolvendo bebidas alcoólicas.
 

 

Assim e ainda segundo aquele semanário, na Suécia, onde o limite é tal como em Portugal o mais baixo da Europa – 0,2 g/l, a percentagem de mortes na estrada onde o álcool esteve presente foi de 9 %. Mas no Luxemburgo, com uma taxa de 0,8 g/l, ou na Holanda, com 0,5 g/l, essa proporção foi de apenas 4 e 8 % respectivamente.
 

 

Mas DE QUE FORMA A QUANTIDADE DE ÁLCOOL INGERIDO PODE AFECTAR A CONDUÇÃO, PERGUNTAR-SE-Á?
 

 

Segundo Duarte Nuno Vieira, professor da Faculdade de Medicina de Coimbra , citado pelo “Público”, “a probabilidade de um condutor provocar um acidente duplica aos 0,5, quintuplica aos 0,8 e é 20 vezes maior com 1,2 g/l.”
 

 

Portanto, por um lado está o Governo, que através do seu Ministério da Administração Interna, considera que o limite de 0,2 g/l é eficaz e previne o consumo de álcool, convicção aliás que saiu potenciada por dados recentes que atestam que desde que foi aplicada a nova taxa de 0,2 g/l, em 1 de Outubro último, se registaram menos mortes nas estradas.
 

 

Sendo os números ainda escassos, já que se referem apenas a pouco mais de um mês, a redução anunciada de 29% parece significativa – de 60.599 condutores fiscalizados, somente 961, ou seja 1,56 % apresentavam resultados positivos, ou seja, uma maioria larga de 60.599 condutores, respeitavam o novo limite de alcoolemia. (“Diário Digital” de 23.11.2001)
 

 

Do outro lado da barricada está todo o sector vitivinícola, representado pelas suas associações, que se sente prejudicado com a medida que considera insensata por não consubstanciada cientificamente, anunciando, ainda segundo o “Público”, prejuízos de cerca de 40 milhões de contos, pedindo a suspensão da lei como forma de evitar a falência das adegas cooperativas produtoras de vinho.
 

 

Na realidade o mal estar deste sector já vem de trás. Assim, desde os anos 70 que o consumo de vinho vem diminuindo em países como Portugal, Espanha, França e Itália, à custa duma subida espectacular (de 4 % a nível mundial) do consumo de cerveja, incluindo Portugal que não era consumidor tradicional. Problema agora potenciado pela crise económica internacional que tem afectado muitos sectores, particularmente os ligados ao consumo de bens de menor necessidade.
 

 

Nesta sequência, assiste-se hoje a uma crise de consumo de vinho em toda a Europa, prevendo-se que venha a haver excedentes da ordem dos 35 milhões de hectolitros nos próximos 5 anos.
 

 

Em Portugal, (em que o sector vinícola corresponde a 18,9% do produto agrícola bruto) a crise já começou a instalar-se, tanto mais que o consumo de cerveja tem vindo a crescer exponencialmente à custa do vinho, tendo-o inclusivamente, já desde 1989, ultrapassado.
 

 

Lançados então que estão os dados da polémica, daremos a conhecer nas próximas edições o nosso ponto de vista face à mesma.
 

 

Quanto a nós, a polémica que tem varrido o país de lés a lés à volta da redução do teor de álcool no sangue de 0,5 para 0.2 g/l, é uma falsa questão.
 

 

Centrar a análise neste pormenor, diria técnico, é desviarmo-nos do essencial quando o fim primeiro e último da medida se pressupõe ser a saúde (vida) das pessoas.
 

 

Se é extremamente grave o efeito do alcoolismo no que se refere à segurança rodoviária, não é na estrada que provoca mais mortes e prejuízos.
 

 

Para melhor compreensão do problema é importante definir a população alvo. Com efeito um estudo recente de Aires Gameiro, publicado no “Público” revela que existem em Portugal 700.000 álcool dependentes, sendo que 4,5 milhões não bebem ou bebem com pouca regularidade, 2,6 milhões fazem-no de forma ritual, 1,8 milhões, com muita regularidade e 1,1 milhões, a quase todas as refeições.
 

 

É um dado adquirido que ele é responsável, directa ou indirectamente, pelos crimes praticados por 40% da população prisional portuguesa, bem como por grande parte dos acidentes de viação no nosso país, mas também e é importante que se diga, responsável por inúmeros acidentes de trabalho, por um enorme absentismo laboral, despedimentos, crimes de ofensas corporais, homicídios, suicídios e incontáveis problemas familiares.
 

 

Como tal, pensamos que se pretendemos atingir o objectivo da redução do número de mortes na estrada em particular e da melhoria da saúde pública em geral, se deveria aproveitar esta questão em boa hora levantada e lançarmo-nos no caminho duma PEDAGOGIA CONSTRUTIVA, começando por encarar os problemas suscitados pelo álcool duma forma mais abrangente, não nos centrando exclusivamente nos seus nefastos efeitos quando é consumido em excesso ao volante.
 

 

Parece-nos importante adiantar desde já e antes de avançarmos mais, que temos a convicção que as pessoas que se embebedam e depois vão para a estrada, são as mesmas que guiam duma forma temerária ou imprudente quando estão sóbrias.
 

 

São pessoas que não dão por norma especial atenção a si e à sua saúde, ou à saúde das pessoas que as cercam e daí estarmos convencidos que é no mínimo redutor equacionarmos o problema da sinistralidade nas estradas unicamente em termos de taxa de álcool no sangue.
 

 

É um PROBLEMA ESSENCIALMENTE CULTURAL, como iremos demonstrar, e como tal a solução passará pela mudança de alguns hábitos há muito tempo entranhados nos portugueses.
 

 

Daí termos avançado no início que existem outros factores a ter em conta para além do álcool quando se pretende pensar duma forma correcta e honesta sobre o problema da sinistralidade rodoviária nas nossas estradas, assim como deveremos ter presente que uma droga, qualquer que ela seja, como o álcool, que é o que nos interessa agora, pode ser mais aditiva numa sociedade que noutra, mais aditiva num indivíduo que noutro e ser ainda mais aditiva para o mesmo indivíduo numa altura que noutra.
 

 

Afigura-se-nos portanto, na linha do que atrás foi dito e tendo presente que o principal objectivo da redução da taxa de alcoolemia é tentar sair o mais cedo possível do rabo da tabela da sinistralidade rodoviária europeia, urgente mudar os hábitos dos portugueses.
 

 

Como no que ao consumo de bebidas alcoólicas diz respeito, URGENTE também se torna ensinar adultos e jovens a beber duma forma mais responsável, criando atmosferas moderadas de bebida, ensinando a associar alimentos sólidos ao acto de beber, ensinando a partilhar o espaço com gente de todas as idades e de ambos os sexos, com ou sem hábitos de bebida (como se vê aliás todos os dias nos divertidos bares das “calles” da vizinha Espanha).
 

 

Não esquecer que as bebidas obtidas por fermentação como o vinho e a cerveja, são muito mais inócuas que as destiladas, com ou sem álcool adicionado, como a aguardente, os licores, o gin, o vodka, o vinho do Porto, o whisky e o vinho da Madeira.
 

 

Como IMPRESCINDÍVEL se torna também divorciar o acto de beber de atitudes de fuga de situações de ansiedade ou sociais, por mais delicadas que elas sejam, fazendo ver sem rodeios, quanto desaprovado será todo e qualquer tipo de comportamento desadequado enquanto se bebe, tendo por outro lado presente que nos jovens o álcool é muitas vezes revelador de dificuldades psicológicas e que muitas vezes também o seu uso se inscreve numa tentativa de ruptura com o que fazem os mais velhos, numa conduta desviante frequentemente impulsiva.
 

 

De salientar também que o mesmo se pode observar com outras drogas, algumas das quais há quem pretenda ver liberalizadas, sem prever quaisquer restrições ou qualquer tipo de controle.
 

 

No fundo IMPORTANTE é incutir novos hábitos nas pessoas, ensinando-as a beber sem desestabilizar, a beber com racionalidade e autocontrole, ou seja, a beber duma forma desligada dos usos e costumes das pessoas que gravitam à sua volta, (como é tradicional nos alcoólicos) incitando-os a criar o seu próprio ambiente, através de atitudes sensatas por moderadas, de consumo.
 

 

Esta aceitação tácita globalizada do conceito de moderação pretendido, indicaria tão somente que o acto de beber seria unicamente uma das muitas actividades que conduziria a relativamente baixos níveis de emotividade e que não estaria associado a quaisquer “ritos de passagem” ou sentimentos de superioridade.
 

 

Como acontece aliás, como já foi dito, um pouco com os espanhóis, em que beber álcool é tão normal como comer ou dormir, ou seja, um hábito integrado e não alienante.
 

 

Ou como em Itália ou na Grécia, onde o acto de beber reflecte sociabilidade e coesão social e não é utilizado como forma de as alcançar. Nem para alcançar efeitos fisiológicos. Ele é consumido não para tentar resolver problemas sociais ou para poder aguentar sentimentos de insuficiência, de desadaptação ou insucesso.
 

 

Como atitude sensata seria também criar para mais tarde tentar enraizar, o hábito de eleger sempre alguém no meio das tertúlias de amigos a abster-se de consumir bebidas alcoólicas sempre que se previsse a utilização de veículos automóveis para deslocação.
 

 

Parece-nos fundamental também neste ponto alterar os hábitos dos portugueses, um pouco à semelhança do que já se vê lá por fora; na realidade não nos parece nada difícil de implantar o hábito de se escolher dentro de um grupo de amigos um voluntário que, por “roulement”, possa aceitar a abstinência.
 

 

O que na sua impossibilidade nos colocaria perante uma situação mais que provável de alcoolismo a merecer então tratamento imediato!
 

 

É que, não se duvide, UMA VEZ MUDADO O HÁBITO, DEPOIS O NORMAL É AS PESSOAS TEREM TENDÊNCIA A SEGUI-LO, mesmo quando se trata de adultos.
 

 

O alcoolismo é devido muito menos a factores biológicos do que a pobres modelos de referência, como já bastas vezes temos afirmado.
 

 

Quando as pessoas se decidem a trabalhar e a ser bem sucedidos, como é o caso bem patente dos chineses e japoneses nos Estados Unidos que conseguiram instalar verdadeiros potentados comerciais e industriais, essa situação é incompatível com o álcool.
 

 

Ele fornece uma desculpa para um comportamento anti-social que doutro modo não seria tolerável.
 

 

A propósito da importância que tem a bebida como elemento desestabilizador ou não duma cultura, os irlandeses são sete vezes mais propensos ao alcoolismo que os seus vizinhos italianos, sendo que estes, ao contrário do que acontece com uma maioria larga de povos, conseguem moderar os seus hábitos de bebida, abstendo-se ainda com facilidade quando desenvolvem problemas com a bebida.
 

 

Um conhecido investigador norte americano dos problemas do álcool, George Vaillant, descreve a diferença entre irlandeses e italianos da seguinte maneira: “É consistente com a cultura irlandesa ver o uso do álcool em termos de branco ou preto, bom ou mau, abstinência completa ou bebedeira, enquanto na cultura italiana é a distinção entre beber moderadamente e em excesso que é mais importante”.
 

 

Porque não seguir então o exemplo das culturas que incorporam o hábito de beber moderadamente num contexto familiar, onde os mais jovens bebem na companhia dos pais e dos amigos, desaprovando fortemente excessos, principalmente quando isso conduz a comportamentos ou atitudes desapropriadas?
 

 

Pode haver um forte moralismo aqui, mas o moralismo não se dirige ao álcool como demónio; dirige-se a valores mais amplos como o respeito pela comunidade e por uma conduta eivada de autocontrole.
 

 

Como acontece aliás com o povo judaico em que existe uma profunda aversão aos bebedores problema, que por se tornarem anti-sociais são por norma evitados e ostracizados.
 

 

Ou como as crianças na “chinatown” em Nova York, onde qualquer indivíduo que perca o controle por se encontrar sob a influência do álcool, é pura e simplesmente ridicularizado pela comunidade.
 

 

Como já acima foi referido, o álcool a partir de determinados níveis de consumo é uma droga depressora; todos os bebedores citam as suas propriedades relaxantes como motivação para beber.
 

 

Mas o que a investigação mostra também e duma forma consistente, é que os alcoólicos, ou seja aqueles que perderam a liberdade de beber, fazem-no na expectativa de reduzir a tensão, mesmo que com a continuação da bebida não experimentem esse efeito e pelo contrário se tornem mais tensos.
 

 

A grande maioria das pessoas quando bebem, esperam mesmo sem consciência, transformações nas suas relações e sentimentos, como forma de lidar com a vida ou para alcançar recompensas que sentem que não podem alcançar de outra maneira.
 

 

Acreditam que se tornarão mais “masculinos”, mais admirados pelas mulheres, mais sociáveis e melhor preparados para as tarefas que se proponham alcançar, que terão uma melhor autoestima e que sentindo-se menos ansiosos, mais integrados se sentirão como indivíduos.
 

 

Mas esta tentativa de alterar a situação dramática que se vive nas nossas estradas, ficaria incompleta, se não chamássemos a atenção para a necessidade urgente de uma fiscalização mais adequada e eficaz por mais massiva e abrangente, dos até agora mais mal preparados, mais indisciplinados, mais inconscientes, numa palavra, mais desgovernados condutores de toda a União Europeia.
 

 

Sem um reforço da fiscalização e talvez de um endurecimento das penas, o êxito de tão difícil empreitada ficaria, a nosso ver, seriamente comprometido.
 

 

Na realidade não é por acaso que todos nós quando nos deslocamos aqui ao lado a Espanha, logo que passamos a fronteira tiramos o pé do acelerador. Porquê? Porque sabemos que os espanhóis não brincam em serviço e se nos apanham em excesso de velocidade ou em qualquer outra transgressão... ou pagamos na hora com dinheiro fresco ou cartão de crédito, ou então não saímos dali, mais a mais sabendo que a probabilidade de sermos detectados são mais que muitas, pois eles com os seus piquetes mais ou menos bem disfarçados, estão por todo o lado!
 

 

Por outro lado, é preciso ter a noção que é preciso muita cautela quando se pretende alterar o “status quo”, bem como estar preparado para os perigos que uma imposição forçada de novos limites ou normas poderão ter para uma população que não esteja preparada por uma campanha de publicidade bem urdida, pois tal pode implicar, como sempre acontece, uma resistência de igual força mas de sinal contrário.
 

 

A tão necessária fiscalização e respectivas coimas só serão aceites e produzirão eficácia, se aplicadas a uma regulamentação sensata e razoável, de harmonia com a população alvo e não apenas com a polida sensibilidade de elites culturais, políticas, científicas, religiosa ou outras.
 

 

 

Dr. Manuel Pinto Coelho
 

Médico

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